Aqui nada escapa ao estilo. É da celebração de linhas, cores, formas e, claro, funcionalidade que se nutre a revista Design Belas Artes, cujo quinto número acaba de sair da gráfica.
Publicada pelo curso de Desenho Industrial da Faculdade de Belas Artes, de São Paulo, a revista aponta para uma abertura temática nesta edição trazendo matérias que poderiam tranquilamente ultrapassar o interesse dos iniciados e inspirar ‘‘pautas’’ em cadernos culturais da imprensa diária.
Na revista de design, uma matéria sobre pipas remete os leitores à infância, as formas arrojadas transformam algumas em verdadeiras obras de arte. Elas foram criadas há 2.200 anos mas, na Antiguidade, mais do que servir ao lado lúdico do homem, as pipas eram usadas como sinalização para informar sobre a chegada dos inimigos aos campos de batalhaO recheio inclui artigos acadêmicos, mostra de trabalhos dos formandos da escola, resenha de livros, atualidades e reportagens sobre assuntos como pipas, o mercado das embalagens e sinalização de banheiros. Já com uma tiragem de quase cinquenta mil exemplares, a revista vem se impondo no meio a ponto de sua equipe editorial ter sido convidada para ‘‘representar’’ o Brasil na última Bienal Internacional de Design, realizada no final do ano passado na cidade francesa de Saint-Étienne.Reprodução
A mudança de perfil da revista é anunciada logo de cara. ‘‘Uma das grandes diferenças entre uma publicação comercial e uma acadêmica tradicional é que a primeira se pauta pelo público consumidor, enquanto a segunda torna pública a produção de seus pares. O número 5 da Design Belas Artes é uma tentativa de romper essa dicotomia’’ - assinala o texto de apresentação, quase como uma ruptura em relação ao número anterior, voltado exclusivamente para a publicação de textos e conferências apresentados durante um encontro nacional de estudantes de design.
São estudantes, aliás, os grandes destacados neste número da revista, que os contemplou com uma mostra de trabalhos de graduação (TGIs) que foram apresentados nos dois últimos anos na Faculdade. Reunindo nove projetos de design gráfico e cinco de design de produtos, o material revela detalhes dos processos de gestação de cada uma das criações selecionadas.
ReproduçãoLeonardo Kerekes Costa e Vanessa de Cássia Barbosa propõem aplicações do design têxtil na decoraçãoOs trabalhos do primeiro grupo giraram em torno dos temas ‘‘Homenagem’’, ‘‘Etnia’’ e ‘‘Marca Brasil’’. No primeiro tópico houve quem elaborasse logomarcas, embalagens, calendários e cartaz a partir dos girassóis celebrizados por Van Gogh. Sobre o segundo conceito, uma estudante optou por estudar a cultura de 14 tribos indígenas brasileiras, transformando sua pesquisa num projeto de comunicação visual para uma loja especializada em objetos utilitários ou decorativos para casa.
A principal imagem da loja é um grafismo com significado mitológico muito forte para os índios: o desenvolvimento da vida animal e a criação da figura humana. O terceiro assunto eleito teve como um dos escolhidos um projeto de design inspirado no vestuário dos escravos negros. A idéia dos criadores era conceber uma grife de moda jovem, cuja logomarca ostentasse um movimento estilizado de dois capoeiristas.
De leitura estimulante, e não só para quem é da área, é a reportagem sobre pipas que abre a revista e que inclui um depoimento do eolista Silvio Voce. A conversa é cheia de sacadas. Silvio diz, por exemplo, que uma pipa no ar conta ao observador quem está na outra ponta da linha. Segundo ele, confeccionar uma pipa de combate é fácil, bastando duas varetas na horizontal e uma na vertical, tudo amarrado por uma linha contínua, além do papel de seda para recobrir.
‘‘Mas’’ - nota ele - ‘‘se as varetas horizontais estiverem bem afastadas uma da outra, quem fez a pipa é morador da zona norte de São Paulo. Se estiverem bem próximas, o pipeiro é da zona leste. Se a vareta inferior estiver envergada, o autor é carioca.’’ Outra matéria capaz de despertar curiosidade fora do metiê, trata da sinalização de banheiros mostrando as diversas visões do masculino e do feminino.
Ilustrando a matéria há sinalizações de banheiros, pizzarias, academias de ginástica e até de postos de beira de estrada da Suíça. Também interessante, embora dirigida para quem atua no setor, é uma reportagem abordando o mercado cada vez mais concorrido das embalagens. A ênfase na importância do ‘‘embrulho’’ é flagrante quando - segundo o autor - o produto vai parar nas prateleiras entre milhares de outras marcas que disputam um relance de olhar do consumidor. ‘‘Ali, o design tem de vencer uma batalha’’ - sublinha ele.
Completando o cardápio editorial da revista, há um artigo de fôlego do professor Wilton Azevedo sobre hiperdesign e cultura do acesso, depoimentos de profissionais que atuaram no mercado internacional e um texto discutindo modelos de associação profissional. Aos interessados, Design Belas Artes pode ser encomendada no seguinte endereço: Rua Álvaro Alvim, 76, Vila Mariana, São Paulo, SP, 04018-010. Tel. (011) 5511 / 549 7985. Fax: 55 11/ 549 7985. Na Internet: www.belasartes.br

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