Celebrando as pistas
Nelson Sato
De Londrina
O melhor disco do semestre, dois titubeantes trabalhos nacionais e um álbum horroroso aclamado pela imprensa européia celebraram a música eletrônica dançante nesta primeira quinzena do mês.
Todos os elogios vão para Play (Roadrunner), novo CD do DJ nova-iorquino Moby, lenda viva no universo das raves. O disco revela um notável garimpador e retalhador de composições alheias, cujo faro traz de novo à tona a discussão sobre o uso supostamente abusivo do sampler.
Desta vez, Moby foi ao fundo do baú da música popular norte-americana vasculhando gravações antigas de blues e gospel, guardadas e fichadas em acervos públicos pelos pesquisadores Alan e John Lomax. É como se algum DJ brasileiro resolvesse resgatar os primórdios da MPB fuçando as bolachonas empoeiradas de vinil da Funarte.
A atitude remete à célebre incursão do grupo de acid jazz US3 aos arquivos da gravadora Blue Note, em 93, quando recheou o álbum Hand on the Torch com samples de astros de jazz da década de 50. Moby também caprichou na pilhagem e na embalagem.
Extraiu trechos cantados mixando-os às batidas programadas, instrumental orgânico e sons digitais. Construiu canções a partir das bases surrupiadas. O resultado é surpreendente. O disco abre com uma melodia da cantora Bessie Jones à qual vão sendo adicionadas palmas, piano, batidas e timbres de cítara.
Find My Baby repete uma frase emprestada de Boy Blue revestindo-a com batidas, guitarras, vocais gospel de fundo e efeitos eletrônicos. Lembra o álbum Screamadelica, da banda britânica Primal Scream. O recurso reaparece em Natural Blues que, como o próprio título sugere, reproduz um lamento do Delta do Mississipi.
Mas o álbum mantém a qualidade mesmo quando abandona essa dinâmica. Em Porcelain, por exemplo, Moby combina chiados de vinil, teclados atmosféricos, vocais sussurrados e melodias de piano. Em Inside revisita o trance, estilo que já abraçou em discos integrais. Apela ao trip hop em cinco faixas (duas são vinhetas) e fecha o repertório em clima de trilha sonora com a bela e triste My Weakness.
É o grande CD da temporada, pelo menos entre os que foram lançados no Brasil. É o oposto de Remedy (Roadrunner), decepcionante trabalho de estréia da dupla inglesa Basement Jaxx que estranhamente foi incensado pela crítica especializada.
A dupla atua na vertente da house, com escorregadas aqui e ali pelo drumnbass, garage, disco music e ragga. Estourou com o single promocional Red Alert, que traz participação da cantora negra Blue James. É uma das poucas faixas bacanas do CD, onde despontam também Alway Be There e Bingo Bango - esta última saracoteando ritmos latinos.
Ainda na praia da eletrônica, convém comentar o lançamento de mais dois trabalhos nacionais, que reforçam a adesão da rapaziada ao gênero. O duo Friendtronik estréia com o álbum [email protected], e o Habitants chega com seu segundo CD Home. Os dois grupos são de São Paulo.
Os discos foram lançados pelo selo Mundo Mix Music (braço fonográfico do Mercado Mundo Mix), com distribuição nacional pela Sony Music. Friendtronik, formado por Xerxes de Oliveira e Paula M., martela as batidas quebradiças do drumnbass. A exemplo do M4J e outros expoentes do som digital brazuca, belisca ritmos locais em seu coquetel rítmico.
É o que se ouve na faixa AM Interference, que começa com um loop de escola de samba e vai aos poucos sendo engolfada pela batida minimalista. O Habitants, por sua vez, é integrado apenas por Renato Malin. Seu parceiro Renato Garga deixou o grupo depois do lançamento do primeiro álbum, em 95. As faixas se sucedem monótonas, com potencipal para empolgar apenas tecnoboys fanáticos e distraídos.
Para setembro, o selo Mundo Mix Music prepara o lançamento do CD do Nude, outro duo paulistano. Os duos, como se vê, proliferam sem parar na música eletrônica. Mas foi sozinho que aquele careca magricelo de Nova York produziu o melhor disco do ano até agora.Um pacote de discos de música eletrônica dançante chegou às lojas do País este mês. O destaque é o novo álbum do DJ Moby
ReproduçãoMoby sampleou gravações antigas de blues e gospelDivulgaçãoBasement Jaxx: disco decepcionante recebeu fartos elogios da crítica especializadaReproduçãoHabitants: novo álbum é mais dançante que o disco de estréiaReproduçãoFriendtronik: drumnbass da zona leste paulistana





