A celebração em cena. Com total despudor a Cia. de Dança de Minas Gerais entrega-se à alegria, à magia e à oferenda artística tomando como mote o espetáculo que hoje, oficialmente, descerra as cortinas do 11ºFestival de Teatro de Curitiba. No Teatro Ópera de Arame, às 20 horas, acontece a estréia de ‘‘Sonho de Uma Noite de Verão – Fragmentos Amorosos’’, com direção de Gabriel Villela e coordenação coreográfica de Cristina Machado.
Tanto Villela como Cristina, em conversa com a Folha2, usaram diversas vezes o termo ‘‘celebração’’, mesmo em entrevistas individuais. Ambos também detiveram-se especialmente na beleza do teatro com sua estrutura em arcos, de formas arredondadas, paredes transparentes, rodeado por árvores e águas. O diretor de 43 anos está visivelmente feliz, diferente do ar angustiado que carregou durante a temporada em Curitiba, quando dirigiu ‘‘A Aurora da Minha Vida’’. Na época sofria dores terríveis, devido a problemas de saúde. Depois disso desceu aos infernos, açoitado por dores d’alma, mas agora respira ventos de novos tempos inaugurados.
Há cerca de um mês Gabriel Villela comentava sobre o espetáculo que estava nascendo. ‘‘Estamos trocando informações de dois vocabulários distintos no teatro’’, explicou. Na tarde de terça-feira, pouco antes de passar todo o bailado de uma só vez, o diretor voltou a falar com a reportagem. Falou de sua satisfação com a arte, da alegria em ver Paulo Goulart e Celso Frateschi num embate magistral entre o Bem e o Mal, em ‘‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’’, e, naturalmente, de como é prazeroso habitar esse mundo artístico. Não ficou somente na obra que acaba de construir, mesmo porque está indo para uma festa onde acaba de ser convidado...
Há um mês ‘‘Sonho de Uma Noite de Verão – Fragmentos Amorosos’’ estava em gestação. Como você vê o espetáculo agora, já concebido?
O que acontece é o seguinte: quando a gente entra na Ópera de Arame para fazer ‘‘Sonho de Uma Noite de Verão’’ modifica tudo. Muda a substância da matéria. Não estou fazendo apologia da arquitetura da Ópera, mas a relação dela com os elementos naturais, a forma como está posicionada aqui dentro, então quando você entra com a fábula shakesperiana e prepara o palco, a casa inteira está disponível. Então não foi à-toa que isso aqui foi inaugurado com ‘‘Sonho de Uma Noite de Verão’’, e que está sendo revisitado agora através de um componente dissonante que é a dança, de mãos dadas com o teatro. O que acontece de mais curioso e prodigioso é o fato de você entrar num espaço que acaba modificando, inclusive na cabeça do bailarino, a conduta dele em dançar Shakespeare.
A casa dialoga com Shakespeare?
Embora a acústica daqui seja sofrível do ponto de vista da palavra, através de linguagens não verbais acho que é o teatro mais fantástico, literalmente, que conheço no mundo. Não conheço outro mais belo que este, anatomicamente falando. Como na fábula shakespeareana a gente não usa a palavra, então é 100% perfeito. Talvez a grande vocação da Ópera de Arame seja de se tornar no futuro o grande palco brasileiro nobre da dança. Uma política mais criteriosa vai perceber que é um palco fantástico para a dança.
Você já conhece este espaço. Qual foi a reação dos bailarinos?
O que fizemos ontem à noite, ao jantar, foi falar de como a Ópera influenciou e modificou o espetáculo. Os bailarinos estão neste instante no Guairão mexendo em partes de ‘‘Sonho de Uma Noite de Verão’’ para poder combinar com a transparência da casa, com a magia da matéria que está aqui. Os bailarinos estão encantados.
Dentro da sua dramaturgia como você coloca esta montagem?
Se for uma questão subjetiva ela está mais para ‘‘Sonho de Uma Noite Primaveril’’. Agora, a relação com a arte está muito bacana nesse instante. É um tempo de fartura, de celebração, de reconquistas, de amadurecimento. Shakespeare é um autor que propicia e te leva a uma reflexão existencial, psicológica, a filosofar sobre a arte e o homem artista que você é. Estar lidando com ele a todo instante, é estar renovando o contrato eterno com o teatro, com a arte. É muito bom isso. Não quero mais nada na vida; quero isso daqui, quero fazer cinema e pronto. Estou muito feliz. Acho que o teatro é muito pródigo comigo.
Ele sacia sua sede?
Em Belo Horizonte fui assistir ao ‘‘Evangelho Segundo Jesus Cristo’’, e no segundo ato tinha uma cena que é o encontro de Deus com o Diabo. É o encontro de dois grandes atores: Paulo Goulart e Celso Frateschi. E um aprendiz de Deus, que é o Eriberto, que faz Jesus no meio de uma guerra filosófica, iconoclasta, que põe abaixo os mitos, os ícones da Igreja Católica. Antes de tudo, eu olhava para aquilo e amava ver um ator pleno conversando com outro ator pleno sobre questões de alta filosofia, questões que me interessam particularmente, que é a reflexão sobre a cultura judaico-cristã, e o prazer de ver isso se transformar nnuma coisa grandiosa. É mais que matéria de carne e osso. Estou por conta dessas coisas. Tenho achado que nada favorece mais esses encontros do que a arte em geral. Fora disso não há vida para mim.
A arte seria o encontro das belezas e das profundidades?
Das belezas e das feiuras também. A cinco, seis anos atrás fui ao inferno e encontrei tanta beleza, tanta merda bonita. Claro que fui ao inferno lendo Rimbaud, Wedekind, Nietzsche. Enfim, muito bem acompanhado, diria, que sempre dá um suporte para você observar que no odor da merda tem sempre um hálito cobiçado, desejado. Se não for nada disso, pelo menos é clarividente. Nada aponta mais o céu do que o inferno.
Essa ida ao inferno foi por motivos particulares ou por razões estéticas?
Por motivos pessoais, subjetivos, mas que atuaram profundamente na forma estética de ver a vida. Aliás, este espetáculo aqui, os três que fiz com o TBC, em São Paulo, as três obras de Chico Buarque tudo isso já são a partir desse encontro no século passado, com o inferno.
‘‘Sonho de Uma Noite de Verão’’ é a celebração da sua primavera?
(longo silêncio) Pode ser até que o espírito da gente esteja em flor, mas tenho sentido plenamente no meu peito, na minha barba, no meu cabelo a presença dos cabelos brancos. Por mais precoce que eles sejam, estão contando alguma coisa de bonito pra gente. E uma delas é que você está deixando o verão e entrando numa fase outonal. Há um descompasso entre a idade do espírito e a idade do corpo. É até paradoxal, mas imagino que a barba branca, o pêlo do peito, as têmporas brancas são a coroação de uma vida precoce na arte. Talvez, um presente dos deuses, já que as cãs originalmente eram motivos de orgulho e de sabedoria.
Você ingressa nesse orgulho?
Eu estou convidado para essa festa, e pretendo ir porque me deram o endereço.
‘‘Sonho de Uma Noite de Verão – Fragmentos Amorosos’’, com a Cia. de Dança de Minas Gerais. Apresentação única hoje, às 20 horas, no Teatro Ópera de Arame, durante a abertura do 11º Festival de Teatro de Curitiba. Direção de Gabriel Villela e coordenação coreográfica de Cristina Machado. Ingressos a R$ 20,00

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