"O balanço que eu faço é de muita alegria e que eu ainda pretendo fazer por muitos anos", diz o cantor sobre sua trajetória de vida
"O balanço que eu faço é de muita alegria e que eu ainda pretendo fazer por muitos anos", diz o cantor sobre sua trajetória de vida | Foto: Wallace Souza/Divulgação

O compositor, cantor, pianista, arranjador e maestro Francis Hime bem que tentou fugir de seu destino musical, mas – felizmente - não conseguiu. Ainda jovem, com apenas seus vinte e poucos anos, o incentivo veio de ninguém menos que Vinicius de Moraes quando, no início da década de 1960, começou a frequentar as reuniões musicais na casa de Petrópolis de um dos principais precursores da Bossa Nova. Ali, encontraria outros sedentos em fazer música brasileira como Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle.

Desses encontros “despretensiosos”, surgiria a primeira parceria de peso com Vinicius, a canção “Sem Mais Adeus”, gravada pela primeira vez por Wanda Sá, em 1963. A partir dali, não havia mais como voltar atrás. Em 1965 lançou o LP instrumental “Os Seis em Ponto” e, no ano seguinte, assinou a direção musical e escreveu arranjos para o show “Pois é”, com Vinicius de Moraes, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Desde então, firmou outras importantes parcerias com nomes da música brasileira, sempre imprimindo sua característica erudita à popular.

Agora, prestes a completar 80 anos de vida, Francis Hime acaba de entrar em estúdio para gravar um álbum inédito em celebração à efeméride. O projeto, com previsão de lançamento em outubro, terá a participação de nomes como Adriana Calcanhotto, Bráulio Pedroso, Geraldo Carneiro, Hermínio Bello de Carvalho, Olivia Hime e Paulo César Pinheiro, entre outros compositores e intérpretes.

PROJETO

O primeiro a gravar neste projeto foi Chico Buarque, cuja parceria começou em 1973, quando Hime lançou “Atrás da Porta” em seu primeiro álbum individual, o LP “Francis Hime”. No mesmo ano, assinou a direção musical da segunda montagem da peça “Gota d'água”, de Paulo Pontes e Chico Buarque. De lá para cá, os dois compuseram algumas das mais belas canções da música brasileira, clássicos como “A Noiva da Cidade”, “Meu Caro Amigo”, “Passaredo”, “Embarcação”, “Pivete”, “Trocando em Miúdos”, “Vai Passar”, entre outras.

Ao longo da carreira, Hime assinou, ainda, arranjos para vários artistas como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Clara Nunes, Olívia Hime, Toquinho, Fafá de Belém e MPB-4. Com ampla formação erudita, em 1986, escreveu sua “Sinfonia nº 1” e, em 1993, fez sua primeira regência à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira, interpretando a obra.

O novo álbum comemorativo chega depois de “Navega Ilumina”, lançado em 2014, último trabalho de músicas inéditas de Francis Hime em seus mais de 50 anos de carreira. Em 2018, o compositor, arranjador e regente recebeu sua primeira indicação ao Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria Artes, pelo livro “Trocando em Miúdos – As Minhas Canções”, no qual contou diversas histórias sobre sua trajetória e composições.

Confira entrevista de Francis Hime à FOLHA:

Aos 80 anos de vida, sendo 55 anos dedicados à música, já é possível fazer um balanço desses momentos?

Na verdade, são mais de 55 anos, porque eu comecei a me envolver com piano aos 6 anos de idade. Depois, ingressei no Conservatório Brasileiro de Música, onde permaneci durante sete anos. Embora eu não gostasse de tocar piano na época, levava muito jeito. Aí cursei engenharia, porque eu não pretendia ser músico. Mas a música foi muito mais forte, graças a Vinicius de Moraes, que enxergou mais longe o talento que achava que eu tinha e ainda se tornou meu primeiro parceiro. Enfim, acabei fazendo o que era minha paixão e é até hoje. O balanço que eu faço é de muita alegria e que eu ainda pretendo fazer por muitos anos.

Foram muitas parcerias com importantes nomes da música brasileira. Se arrepende de alguma ou gostaria de ter tido outra que não ocorreu?

Não me arrependo de nenhuma. Uma das minhas características é ter muitos parceiros. Geraldo Carneiro é um de meus parceiros com mais frequência atualmente; ele brinca que sou o parceiro mais promíscuo da música brasileira. Sempre gostei de compor com muita gente e isso me estimula muito. Não tenho aquela ideia de procurar uma parceria estável como acontece: Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Ivan Lins e Vítor Martins, João Bosco e Aldir Blanc.

Embora eu tenha tido parcerias duradoura, como o Chico, Vinicius, Olivia que, na verdade, é parceira de vida e música, eu gosto muito de compor com parceiros novos, isso me motiva muito. Sobre as que gostaria de fazer ainda? Não sei, Caetano Veloso (já até mandei uma música para ele), ou Djavan. Fiz uma parceria recente com Martinho da Vila, que adorei. Tem ainda uma com Nei Lopes que está inédita, outra com Moacyr Luz, e alguns nomes da música da nova geração, como Thiago Amud. Existem muitos compositores e poetas espalhados pelo Brasil, temos uma riqueza muito grande nesse aspecto.

Como e quando percebeu que seu caminho seria o de unir a música erudita à popular? Isso sempre foi claro no seu trabalho ou somente anos depois que isso foi observado?

Isso aconteceu em meados da década de 1980 quando o Benito Juarez, que era maestro regente da Orquestra Sinfônica de Campinas, me encomendou uma sinfonia. Eu gostava muito de escrever para orquestras e já tinha feito alguns arranjos para discos importantes, sobretudo, Chico Buarque. Esse gosto de escrever, então, já estava persente e começou a se desenvolver ali.

Depois, Raphael Rabello, que era muito meu amigo, me incentivou a escrever um concerto para violão e orquestra, que eu escrevi para ele – mas ele “se mandou” antes. A partir daí, comecei a exercer uma atividade na música de concerto paralelamente à musica popular. A minha escrita na musica erudita, portanto, se situa um pouco nessa fronteira, entre a popular e de concerto: muitos temas que eu uso tem relação com a popular e com música que faço no campo das canções e sambas.

Como idealizou este trabalho comemorativo? Como foi e está sendo a escolha de repertório, de intérpretes, formatação de arranjos?

Essa ideia nasceu há pouco tempo quando Tiago Torres da Silva, poeta e meu parceiro de Portugal, me mandou um poema que eu musiquei. Fiquei muito satisfeito com o resultado e ele também. A partir dali pensei em gravar um disco de inéditas, mandar música para os parceiros. Mandei para Adriana Calcanhoto, que foi uma das últimas a apresentar letra; mandei um choro que eu fiz no começo do ano para o Hermínio Bello de Carvalho, um choro quase que instrumental que teoricamente não teria letra; mandei um samba pro Thiago Amud; Olivia Hime também fez uma letras, e aí foi nascendo o repertório do disco, no qual reuni 13 canções. A escolha dos intérpretes foi ligada um pouco às músicas em si e ligações afetivas. Por exemplo: Adriana cantou comigo a música que fizemos, Chico cantou uma música que eu Olivia fizemos pra nossa neta caçula, Laura.

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