CELEBRAÇÃO - Os 60 anos de um mito
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de outubro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
''Tenho ótimos genes, e além disso me cuido muito''. Esta é a resposta banalizada que Catherine Deneuve oferece aos repórteres de frivolidades que sempre a assediam com a pergunta sobre o segredo de sua eterna beleza. Sim, ele deve ter ótimos genes. Sim, ela com certeza se cuida muito, nascida e vivida nos domínios da mais incensada indústria de cosméticos do universo. Mas sua sobrevivência iconográfica como mulher, atriz e personalidade, teve, sim, muito a ver com inteligência. Que alguns confundiram sempre com frieza.
São esses justamente que não entendem Catherine Deneuve, aliás nascida Catherine Dorleac há exatos 60 anos. São esses que, sem entendê-la, a apelidaram de iceberg. Desfrutando de invejável maturidade, La Deneuve, a grande dama do filme francês, um dos raros mitos que a Europa legou ao cinema mundial, continua trabalhando a pleno vapor. Seu último triunfo está na minissérie ''As Ligações Perigosas'', que a televisão francesa produziu e apresentou há dois meses, outra adaptação do famoso romance de Laclos.
Para os franceses, que há algum tempo a elegeram a ''avó ideal da França'', ela representa o ideal da mulher madura deste início de século. Uma pessoa independente, que viaja, pratica esportes, tem vida social, é sexual e economicamente ativa e ainda cuida dos netos. Precisa mais? A coisa toda é meio paradoxal porque Catherine nunca fez emblematicamente parte do movimento feminista, embora sua ''militância'' sem bandeiras tenha sido tão importante quanto documentos, manifestos e queima publica de sutiãs. Como contribuição a essa liberação que ocupou as mulheres nestas últimas décadas, ela ofereceu sua ambiguidade, seus dois lados da vivência, a diva de aspecto virginal e a dona de um magnetismo sexual perverso.
Nunca se diagnosticou com precisão, mas sabe-se que uma tragédia marcou profundamente seu processo de crescimento como mulher e atriz. Foi sua irmã mais velha, Françoise Dorleac, que a incentivou a ganhar dinheiro durante as férias, fazendo os primeiros filmes. Foi sua irmã Françoise que sacudiu sua indolência e a fez adotar seu sobrenome materno (Deneuve) para que ambas tivessem vida artística própria. Foi sua até então inseparável irmã Françoise - com quem formava a dupla perfeita, a mulher completa, o ideal feminino - que, em 26 de junho de 1967, morreu carbonizada num acidente de trânsito. Por 30 anos Catherine jamais se referiu em público à irmã.
''Bela como a morte, sedutora como o pecado, fria como a virtude''. Assim se referiu a ela Luis BuÀuel, que a imortalizou em ''Belle de Jour'' e com quem saiu do set sem trocar palavra. E há os romances. Um casamento, com David Bailey, sem filhos. Duas uniões com filhos, com Roger Vadim e Marcello Mastroianni. E muitas relações famosas, com Truffaut, Polanski, Jacques Demy, Johnny Halliday, Burt Reynolds, Omar Sharif (''ele se achava o homem mais belo do mundo, mas eu era La Deneuve''). Nos anos 60, seus melhores filmes, sempre distante de Hollywood, que jamais a conseguiria engolir. Nestes últimos tempos, o culto à ambivalência como atração, um culto desnecessário porque, como dizia Truffaut, ''o que ama nela é o mistério''. E como perdura este mistério, agora ainda mais ''misterioso'' nos domínios da terceira idade.


