CELEBRAÇÃO - Gênio rebelde e incorrigível
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de abril de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Marlon Brando na juventude, quando inaugurou o protótipo da masculinidade moderna, e na fase madura quando filmou O Poderoso Chefão: mais tarde ele trocaria as mulheres por comida, transformando-se em um obeso
''Quando alguém se transforma em astro, todo mundo começa a fazer perguntas sobre política internacional, astronomia, relações humanas, arqueologia e controle da natalidade'', resmungou ele um dia. O provocador Marlon Brando, gênio e figura, jamais se deu bem com jornalistas, mas também nunca se mostrou agradecido com a profissão que lhe deu fama e dinheiro - a definia como ''a expressão de um impulso neurótico'', e afirmava que o único sinal de maturidade diante dela seria abandoná-la. Na verdade, o homem que, tanto por seu tipo físico quanto por sua rispidez inaugurou há 50 anos o protótipo da masculinidade moderna nunca aceitou de bom grado as regras estabelecidas. Graças a esse espírito indomável, sua imagem pública despertou simultaneamente amores e ódios tão inflamados como a admiração por trabalhos em teatro e cinema: ''Um Bonde Chamado Desejo'', ''Viva Zapata'', ''Julio César'', ''Sindicato de Ladrões'', entre outros títulos daquela primeira fase.
Houve depois muitos altos e baixos em sua trajetória, mesclando fracassos retumbantes e brilhantes renascimentos. E uma sucessão de desgostos iria determinar com o tempo o começo de sua decadência física, emocional e financeira. Há quem diga que a morte da mãe idolatrada foi a maior responsável pela perda de rumo profissional durante os anos 1960. A volta por cima desse abismo foram duas de suas maiores criações, ''O Poderoso Chefão'' e ''O Último Tango em Paris'', ambas de 1972. Ele mesmo confessou, em sua autobiografia ''As Canções que Minha Mãe me Ensinou'' (quase 500 páginas em que conta quase nada ou muito pouco sobre si mesmo), que ao sentir o peso da idade trocou as mulheres pela comida.
As demais contrariedades, exatamente as mais graves, são mais recentes e foram exploradas ao máximo pela imprensa. O filho mais velho, Christian, matou o namorado da irmã Cheyenne. Condenado, passou cinco anos na cadeia. Em pouco tempo a depressiva Cheyenne se suicidou. Brando gastou grande parte de seu patrimônio na defesa do filho, e ainda mais recentemente voltou a dar mais dinheiro aos advogados, quando o nome de Christian apareceu ligado ao assassinato da mulher do ator Robert ''Baretta'' Blake.
É muito provável que os 80 anos completados hoje não ofereçam motivos para comemoração. Quem ainda mantém contato com ele - o ator vive recluso em sua casa de Beverly Hills - afirma que Brando sofreu um infarto em fevereiro de 2002, como consequência de um problema pulmonar. Tem mais: também tem dito que está financeiramente quebrado - sua última companheira andou pedindo na justiça nada menos que U$ 100 milhões. Quem já foi dono de uma ilha paradisíaca no Pacífico sobrevive agora com uma pensão de US$ 6 mil, mais US$ 1.856 que correspondem ao seguro social.
Brando trabalhou muito pouco nos últimos anos - não apenas por seu atual estado de obesidade, mas porque os anos não o domesticaram nos sets. E também porque ainda considere que, quanto mais inacessível se mostre, maior será o cachê oferecido para aparecer na tevê e no cinema. A imprensa colombiana anunciou em novembro de 2003 que Brando se despediria do cinema com ''O Outono do Patriarca'', de Gabriel Garcia Márquez. Bem a propósito.
E se você descobrir o e-mail de Marlon Brando, e quiser que ele leia sua mensagem, uma dica: o ator só abre o correio eletrônico quando o destinatário for seu cachorro favorito, Dr.Tim.


