E a festa começou, como previsto. Quer dizer, não. Ou sim, mas não exatamente como ocorre com as grandes festas nos grandes eventos. Durante a exibição de ''Cegueira'' ontem pela manhã para uma sala Debussy absolutamente lotada e com muitos jornalistas sem poder entrar - há mais de 4 mil credenciados, um recorde quebrado -, aos poucos foi fazendo sentido aquilo que o diretor Fernando Meirelles disse a respeito de seu filme. Entre honrado e apreensivo com a indicação para abrir a mostra competitiva, o cineasta de ''Cidade de Deus'' e ''O Jardineiro Fiel'' afirmou que sua adaptação do romance de José Saramago não era precisamente o título talhado para inaugurar um mega acontecimento como este 61º Festival de Cannes.
E também se antecipou na prática o que foi intuído pela crítica quando em abril se divulgou a seleção deste ano. Menos ''hollywoodianidades'' e mais, bem mais matéria de pensar. ''Cegueira'' é assim. Um filme áspero, duro, incômodo em muitos momentos, mas que aos poucos vai informando a que veio. De antemão era mesmo infilmável, o ''Tratado Sobre a Cegueira'' publicado em 1995. Ciente desta dificuldade, três anos depois o próprio Saramago recusou a proposta inicial de Meirelles para levar a obra ao cinema. Somente em 2004, pela ingerência do produtor canadense Niv Fichman, o Nobel português acedeu, e os preparativos então começaram.
Esta história, e mais outros detalhes, Meirelles e o produtor Fichman contaram ontem durante a longa, concorridíssima entrevista coletiva após a premiere mundial do filme. Eles e parte do ótimo e muito engajado elenco que ajuda, e muito, a segurar uma narrativa alegórica de início ao fim - vieram ao festival Julianne Moore, Danny Glover, Gael Garcia Bernal, Alice Braga, o ator e roteirista Don McKellar e dois excelentes atores japoneses que estão em ''Cegueira'', Yusuke Iseya e Yoshino Kimura. Só José Saramago não veio - Meirelles vai mostrar o filme a ele em Lisboa neste sábado. O diretor não esconde que esta é a exibição que o deixa de fato nervoso, mais do que a abertura de Cannes.
Há de tudo um pouco, em ''Cegueira'', mas seja o que o espectador quiser como definição, o tom de alegoria é uma presença quase asfixiante. Certo dia, em certa megalópole, certo indivíduo perde repentinamente a visão. É o início de misteriosa epidemia que aos poucos contagia a população e a deixa cega. A história se concentra num grupo, liderado por um médico oftalmologista. As autoridades colocam estas pessoas de quarentena numa espécie de asilo, e Meirelles faz destes novos deficientes visuais agora isolados o seu microcosmo de observação. A única a não perder a visão é a mulher do médico, vivida por Julianne Moore.
No local da quarentena há uma espécie de profeta (Danny Glover), que o escritor afirma ser seu alter ego. ''Se você pode olhar, veja. Se pode ver, observe'', escreveu Saramago no prefácio de seu romance filosófico. Uma série de conflitos ocorre então entre grupos reclusos no asilo, e é em função deles que é possível colocar em discussão temas filosóficos, sociológicos, políticos, psicológicos. Não há respostas prontas, mas questões postas como estímulo ao debate. Sobre a questão simbólica da cegueira, e na fase preparatória dos atores, a brasileira Alice Braga trouxe contribuição valiosa a Meirelles e ao elenco, indicando o documentário ''Black Sun''.
Para Meirelles, a idéia primeira está na noção do caos civilizatório. Colocada a questão na coletiva, para o diretor há vários níveis de leitura, tanto no texto de Saramago quando em seu filme: ''Uma metáfora sobre o poder, uma parábola sobre os perigos do mundo futuro, uma análise comportamental do homem sob experiências traumáticas causadas por stress profundo, um comentário sobre nossa recusa de ver o que se passa ao nosso redor, uma meditação existencial sobre nossos instintos primitivos''.
Rodado com orçamento parcimonioso, falado em inglês em regime de produção ''muito, mas muito independente, que é como eu gosto'', disse o diretor, ''Cegueira'' é um filme corajoso por sua postura inabalável em favor de idéia, ou idéias, humanistas. E aqueles que eternamente se rendem à preguiça mental no cinema podem ver ''Cegueira'' também através de sua parcela de thriller de ação filosófica. Quem sabe passam então a enxergar mais que um palmo além do nariz?
O júri de premiação, com cara de poucos amigos, fez sua apresentação em coletiva burocrática. Presididos pelo ator e diretor Sean Penn, ex-bad boy em Hollywood e hoje elevado na Europa à condição de cult, os demais não disseram muito bem a que vieram - claro que se espera que vão julgar com isenção e critérios artísticos, estéticos, etc, etc que é que o que eles dizem. Todos os anos é sempre a mesma coisa, quase nada muda na posição obviamente equidistante na abordagem dos filmes concorrentes. Esta é uma coletiva inútil. Justifica-se apenas a de encerramento, quando então vão ter que se explicar porque deram esta ou aquela premiação, e não outras. Fazem parte da comissão as atrizes Jeanne Balibar, Nathalie Portman, Alexandra Maria Lara e os diretores Alfonso Cuarón, Rachida Bouchareb, Marjane Satrapi, Sergio Castelito e Apichatpong Weerasethakul.

O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes

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