Nelson Sato
de Londrina
Os vocais arranhados desafiam o ouvinte. Em seu terceiro disco, o cantor e compositor Edvaldo Santana reafirma a proposta de dialogar com os vários ritmos filtrando-os por uma visão e uma voz peculiares que acolhem desde um samba-blues a uma toada pontuada por riffs de guitarra slide.
O disco, que traz apenas o nome do artista no título, chega ao mercado pelo selo Tom Brasil quatro anos após o lançamento de seu último trabalho. Foi produzido pelo próprio músico em dupla com o guitarrista Luiz Waack. Reúne parcerias com Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Paulo Leminski e Ademir Assunção.
Traz convidados especiais como Oswaldinho do Acordeon, Bocato e as cantoras Mona Gadelha e Titane. Nas letras, Edvaldo Santana oscila entre fragmentos líricos e amargos de sua biografia como habitante da periferia paulistana e o ataque ao cinismo contemporâneo. Na faixa ‘‘Mestiça’’, dedicada ao guitarrista Carlos Santana, ele imprime uma espécie de manifesto exaltando o cosmopolitismo musical.
Em ‘‘Sem Cena’’, harmonias de jazz e bolero se revezam pontuadas por solos de trumpete. É o ponto alto do CD ao lado de ‘‘Canção Pequena’’, onde faz um dueto nos vocais com a cantora Titane. Mas nem todas as canções-fusões convencem, além do que, alguns arranjos padecem de um certo melodismo retrô calcado no rock de raiz setentista.
O texto de apresentação do CD é de autoria de Tom Zé. O primeiro trazia a assinatura de Arnaldo Antunes. Edvaldo cerca-se de amigos ilustres e talentosos. Arredio a rótulos, revela uma obra em curso. Não é ainda seu grande disco. Em entrevista à Folha2, Edvaldo Santana fala do lançamento.

Por que você ficou quatro anos sem gravar?
Edvaldo Santana – Porque esse é, na verdade, o espaço de tempo necessário para criar. Ninguém cria em cima da hora. Música não é jingle. É arte. Esse período ajudou na maturação do trabalho, em todo o processo de mixagem e masterização no estúdio. Deu tempo para esmerilhar e lapidar o repertório para dar um padrão ao disco. Essa é a vantagem de ser independente: não tem produtor enchendo o saco, não tem pressão dos esquemas de uma gravadora multinacional.
Sua voz parece menos áspera neste disco do que nos anteriores. Você concorda?
Ela parece menos rouca, mas é porque agora ela está mais à frente, com os timbres mais definidos. Nos discos anteriores, a mixagem escondeu minha voz. E tem uma outra coisa: minha voz propositalmente harmoniza tudo, faz a equalização do disco todo.
Você dedica a faixa ‘‘Mestiça’’ ao guitarrista Carlos Santana. Ele é sua grande influência musical?
A música dele no álbum do festival de Woodstock foi decisiva para minha formação musical. Foi a faixa que mais ouvi daquele disco na minha adolescência. Ficava fascinado com as misturas que ele fazia já nos anos 60. Todos os meus discos têm proximidade com ritmos latinos trazendo citações de salsa, rumba, guajira e outras levadas caribenhas.
Você se considera ‘‘maldito’’?
Sou contra catalogações. Eu fui criando ouvindo Raul Seixas, blues e
rock-n’-roll. A mídia fala que um e outro é maldito, mas que maldito? Os caras são completamente do bem. A tendência da imprensa é catalogar. Alguns falam que minha música é difícil, é de vanguarda, não sei o quê, só porque sou de São Paulo. É um preconceito. Em São Paulo, está todo mundo. O próprio pessoal da vanguarda paulistana era do Paraná. Então fica um papo de gueto, de grupinhos de intelectuais rotulando todo mundo que não deixa a música chegar ao povo.
Você acha que chegou ‘‘ao ponto’’ em sua proposta de mistura de ritmos?
Estou amadurecendo. Sem querer ser vanguarda, acho que estou aprimorando as misturas que faço como um morador de uma cidade cosmopolita que sempre recebeu influências dos mouros, sambistas, forrozeiros etc. Acho que as fusões estão bem mais claras nesse disco. A faixa ‘‘Samba de Trem’’, por exemplo, traz uma mistura de samba com blues que considero uma novidade no Brasil. É um samba com guitarra slide. Não é uma mistura barata. Tem uma liga rolando ali.

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