CD traz as pérolas de Wilson Baptista
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sábado, 25 de junho de 2011
Roberta Pennafort <br> Agência Estado 
Rio de Janeiro - Há quem pense que ''Meu Mundo É Hoje'' (eu sou assim/ quem quiser gostar de mim/ eu sou assim) seja um samba de Paulinho da Viola. E que ''Acertei no Milhar'' tenha sido composto por Moreira da Silva. São ambos de Wilson Baptista (1913-1968), artista de enorme sucesso dos anos 1930 ao 1960, considerado por Paulinho ''o maior sambista de todos os tempos''. Hoje - apesar de vez ou outra ser lembrado pela série de sambas-provocação trocados com Noel Rosa, este, sim, eternizado -, ele é tão ignorado que, ao ver sua imagem no cartaz do musical que resgata seu fabuloso repertório, houve gente que perguntasse, ao se deparar com apenas dois atores em cena: ''Cadê o outro ator que está no cartaz?''
Escrito e encenado por Rodrigo Alzuguir e Cláudia Ventura, o espetáculo se chama ''O Samba Carioca de Wilson Baptista''. Foi um fenômeno ano passado, no Rio, e deve chegar a São Paulo em breve.
O CD ''Reserva Especial'' tem 20 faixas desconhecidas, gravadas por artistas que se relacionam de alguma forma com a obra de Baptista, alguns já seus intérpretes, como Elza Soares (que no CD mostra Artigo Nacional, gravado há 70 anos e nunca mais) e Zélia Duncan (''Que Malandro Você É!'', resgatada por Alzuguir numa revista velha).
O elenco, que gravou ano passado (o CD só está saindo agora porque o sucesso teatral o atropelou), tem ainda nomes como Mart'nália, Céu, Teresa Cristina, Rosa Passos e Roberto Silva. São sambas que o compositor queria ter visto gravados por Aracy de Almeida, Linda Baptista ou Chico Alves, mas não conseguiu.
Ele era tímido para vender as músicas para os cantores gravarem. Morreu esquecido. Se tivesse vivido mais um pouco, teria chegado à época em que outros autores, como Cartola e Nelson Cavaquinho, foram redescobertos.
Filho da classe baixa, Baptista nasceu em Campos, no interior do Rio, e veio criança para a capital com a família. Logo se ambientou na malandragem da Lapa e da Praça Tiradentes. O ''maestro caixa de fósforo'', como chamava Custódio Mesquita, vivia de escrever crônicas sociais de seu tempo. As mais conhecidas são as que narram a rivalidade com Noel, que teria se originado numa disputa por uma morena de um cabaré da Lapa: de Baptista, ''Mocinho da Vila'', ''Frankenstein da Vila'', ''Conversa Fiada'' e ''Terra de cego''; de Noel, ''Rapaz Folgado'', ''Palpite Infeliz''.
Noel não gostava da apologia da malandragem, em versos como ''Eu sou vadio/Porque tive inclinação'', de ''Lenço no Pescoço'', que detonou a ''briga''; Baptista respondia que Vila Isabel não era o paraíso dos sambistas. Acabaram amigos e parceiros. Morto aos 26 anos, Noel mereceu grande cortejo e enterro assistido por personalidades. Já Baptista morreu sem que se fizesse alarde, e sem nada, quatro dias depois de fazer 55 anos.


