Os alemães não devem gostar, mas o grande sucesso da 50ª edição da Feira do Livro de Frankfurt é a biografia ‘‘Hitler’’, escrita pelo professor inglês Ian Kershaw, lançada simultaneamente na Inglaterra e em Frankfurt. Eles, evidentemente, preferiam que as atenções da mídia e do público estivessem voltadas para os 250 anos de Johann Wolfgang Goethe, maior poeta e pensador da língua alemã e um filho dileto da cidade.
O aniversário será o grande tema da feira de 99. Preparando terreno para o mundo voltar a pensar nos germânicos sensíveis e não nos desprezíveis nazistas, acaba de ser apresentado para a imprensa ‘‘Goethe: Zeit, Leben, Werk’’, um CD-ROM espetacular que reúne mais de 35 mil páginas de livros, 400 fotos e 240 minutos de documentos sonoros e visuais. Outro lançamento importante são as ‘‘Memórias’’ do poeta nicaraguense Ernesto Cardenal.
‘‘Cinza, querido amigo, são todas as teorias, e verde é a árvore dourada da vida’’: levando a sério o conselho do próprio autor do ‘‘Fausto’’, a Stifung Weimarer Kalssik pôs mãos à obra e resolveu trazer o pensamento goethiano para o século 21.
O CD-ROM será posto no mercado apenas em janeiro, mas valerá a pena esperar até lá. Todos os 22 volumes da celebrada edição berlinense do pensador alemão (com poesias, escritos dramáticos, romances, histórias, contos, textos autobiográficos, estudos teóricos e traduções) estarão acessíveis num único disco.
Além disso, o multimídia incluirá cartas, o ‘‘Conversações’’ com Goethe, de Eckerman (companheiro do poeta, que reuniu seus bate-papos elevados com o amigo num livro delicioso), e uma rica fortuna crítica. Vale até aprender a língua de Goethe para lê-lo na tela do computador e ver as centenas de imagens e musicais incluídas no CD-ROM, que deverá custar 90 marcos (cerca de US$ 160).
Complemento ‘‘É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido’’, disse o Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o português José Saramago, acreditando na perenidade das letras impressas ante o avanço crescente da informática na literatura. Frankfurt não acredita em lágrimas e prefere apoiar, com entusiasmo, o avanço da Internet e dos CD-ROMs.
‘‘Acredito que o livro impresso continuará a ser importante nas próximas décadas, mas será complementado pela informatização e pelos multimídias’’, acredita o presidente da Associação dos Editores Alemães, Gerhard Kurtze.
‘‘O futuro do livro depende da sua capacidade de interação com a eletrônica e não de sua oposição a ela: temos mais de 1,8 mil companhias oferecendo produtos de mídia eletrônica em Frankfurt, deixando claro que esse futuro já começou’’, completa Kurtze. Apenas o catálogo de direitos autorais de Frankfurt registra a existência de mais 13 mil títulos em CD-ROM de 68 países diferentes.
‘‘Precisamos reconhecer que as expectativas do passado, que previam um avanço na mídia eletrônica, estão sendo confirmadas, bem como a ansiedade por parte de muitos em função desse crescimento’’, diz Roland Ulmer, diretor da Feira de Livros de Frankfurt. ‘‘É necessário cautela nas críticas, pois ficou evidente, com a nova tecnologia, que a qualidade de seu conteúdo é fundamental para um desenvolvimento econômico positivo’’, assegura o diretor. Quem viver, lerá. Se nas páginas de um livro ou na tela do computador, isso ainda não sabemos.
Enquanto os livros não acabam, há quem ainda escreva a mais antiga das literaturas: as memórias. É o caso do poeta nicaraguense Ernesto Cardenal, que acaba de lançar o primeiro volume de sua autobiografia em Frankfurt. Com sua indefectível boininha preta, uma bata branca e muitas palavras de ordem na boca, Cardenal continua o mesmo de há 30 anos. ‘‘Escrevi essas memórias e arrependi-me logo em seguida, mas, como o editor me obrigou, estou publicando’’, disse. ‘‘Ainda faço o segundo volume, mas não quero escrever toda minha vida sobre mim, como Proust’’, explica.
‘‘Levantem-se todos, também os mortos’’, diz o último verso do canto nacional de Cardenal, um padre que foi ministro do governo revolucionário da Nicarágua. ‘‘Nesse primeiro volume, converso com velhos conhecidos que já morreram’’, afirma Cardenal.
Apesar do saudosismo, ele não perdeu o impulso político. ‘‘Sou um místico revolucionário: nunca tive vocação pastoral e não sirvo para fazer batismos, algo que o Vaticano, aliás, me proibiu, e fico feliz por isso’’, diz o poeta. Cardenal está com relações rompidas com o Vaticano porque se queixou ao Papa de que o núncio da Nicarágua era somosista, não deixando de jogar farpas nem sequer em sua santidade. ‘‘Paulo VI mandou uma bênção especial para Somosa.’’
No próximo volume, Cardenal contará a sua passagem pelo seminário e pelo Ministério da Cultura sandinista. Mas nega ter-se deixado levar pela política. ‘‘Não sou político e não participo de governos por política; nunca seria ministro de um país europeu, pois na Europa não há revolução e, portanto, não há lugar para mim’’, afirma Cardenal. ‘‘Foi a experiência da pobreza e da religião que me levou à revolução’’, decreta o escritor, para quem o tempo não parece ter passado, nem os muros terem caído.

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