O impulso criativo surgia em qualquer lugar: restaurantes, escritórios, reuniões sociais. Às vezes, num bate-papo, um fraseado musical vinha-lhe à mente. A solução era registrar esses vislumbres com os recursos disponíveis, como guardanapos. Por isso os bolsos do compositor Camargo Guarnieri viviam cheios de melodias anotadas em papéis amassados.
Quando chegava em casa, na hora do almoço, trazia anotações e muito assunto. Durante a refeição, falava desde contraponto até filosofia. O compositor lia muito, costume adquirido no convívio com o escritor Mário de Andrade. Com embasamento intelectual, Camargo Guarnieri se tornou um dos principais compositores brasileiros. Sua música, profunda e consistente, utiliza desde dissonâncias até o atonalismo, alternando entre momentos eloquentes e compassos melancólicos, sutis.
Após sua morte, em 1993, o reconhecimento de sua obra aumentou proporcionalmente ao número de gravações. Mas, como acontece com vários autores, apenas algumas composições são registradas com certa frequência. A maioria da produção, porém, permanece praticamente desconhecida.
Arquivo PessoalLaís de Souza BrasilÉ o caso das sonatas nº 2, 3 e 4, interpretadas por Tânia Camargo Guarnieri - filha do compositor - no violino, e Laís de Souza Brasil, no piano. Gravado no ano passado, traz um dos raros registros destas três obras - recentemente foi lançado um disco na Alemanha, que raramente é encontrado no Brasil, o que dá ao álbum de Tânia e Laís um caráter quase inédito.
Além de registrar composições pouco divulgadas, o CD ainda conta com a interpretação de duas especialistas na obra de Guarnieri. O disco será lançado hoje, às 21 horas no Teatro Anne Frank, em São Paulo, com um recital. As interpretações foram gravadas pelo selo Mix House e têm distribuição nacional pela Eldorado.
A história do álbum começou com o interesse do instrumentista cubano Paquito D’Rivera pela música de Guarnieri. Paquito, que já tocou com Dizzy Gillespie, foi levado pela produtora Cilene Peres, da Mix House, à casa da família Guarnieri em São Paulo, em busca de obras do compositor para clarineta. Lá, a produtora ouviu uma parceria de Tânia com Laís tocando uma das sonatas. A interpretação agradou e as duas foram convidadas para gravar o disco.
‘‘Até então não tinha aparecido oportunidade. Eu queria gravar com a Laís porque ela é uma grande pianista, mas atualmente moro na Itália e fica meio complicado. O disco já está pronto há tempos, e foi prensado no começo deste ano’’, comenta Tânia Camargo Guarnieri.
Os currículos das intérpretes são extensos. Tânia começou a ler partitura ainda na infância - ‘‘Nem lembro quando’’, ressalta - e conviveu com grandes músicos. Como violinista, recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior. Foi regida pelo pai como solista da Orquestra Sinfônica da USP.
Laís de Souza Brasil não fica atrás. Suas primeiras apresentações ocorreram aos seis anos de idade. Em sua carreira acumula prêmios e diplomas nacionais e internacionais, e foi responsável por algumas das primeiras audições de obras de Guarnieri.
O músico produziu ao todo sete sonatas para piano e violino. A primeira se perdeu. A mais famosa é a nº 4, mas a nº 5 também é conhecida. As outras raramente são executadas ou gravadas. A nº 3, por exemplo, ganha sua primeira versão brasileira com este lançamento.
A filha do compositor deseja também gravar as outras três sonatas, de números 5, 6 e 7. ‘‘Não é um projeto, mas tenho vontade, gostaria muito, e imagino que tocarei com a Laís’’, comenta. A violinista revela que a maior parte da obra do compositor ainda permanece desconhecida. ‘‘Tem tudo ou quase tudo para ser divulgado. As pessoas tocam e gravam as mesmas coisas, e ainda tem muito o que ser feito. Mas o interesse está aumentando, há muita procura. A música dele é sempre bem-vinda. Tenho tocado na Europa, onde ainda não é muito conhecida. Nos Estados Unidos todos, no meio musical, conhecem’’, acrescenta.
Entre as três sonatas gravadas, há uma que provocou um conflito entre Guarnieri e Mário de Andrade. Na ‘‘Sonata nº 2’’, o compositor usou muitas dissonâncias, provocando a repulsa do intelectual - na época dedicado a um ‘‘nacionalismo musical’’ que não incorporava a utilização desses recursos. A crítica de Andrade foi ferrenha, e o intelectual chegou a perguntar em um texto sobre a obra: ‘‘Pode realmente existir atonalismo?’’ Mas, anos depois, Mário de Andrade ouviu a música em um recital, gostou e retirou a crítica.
A ligação de Guarnieri com Mário de Andrade surgiu no início da carreira do compositor, em 1928. Guarnieri mostrou algumas obras ao escritor, que deixou sua biblioteca disponível para a formação cultural do jovem instrumentista.
Em 1938, Camargo Guarnieri mudou-se para Paris e, em 1942, venceu um concurso de composição nos Estados Unidos. No ano seguinte, ocorreu em Nova York um concerto com suas obras, interpretadas por nomes como Leonard Bernstein. Os prêmios se multiplicaram na carreira de Guarnieri, que assumiu, em 1975, a Orquestra Sinfônica da USP, cargo que ocupou até morrer, em 1993. Camargo Guarnieri deixou aproximadamente 683 composições.
‘‘Eu o considero o maior compositor do Brasil, independente de ser meu pai. Sua musicalidade é perfeita, com uma arquitetura impressionante, cada nota é essencial e tem que ser tratada com atenção única. Quanto mais estudo, mais me apaixono’’, revela Tânia Guarnieri.
A estrutura da música do pai ainda surpreende a instrumentista: ‘‘Tem uma polifonia e um contraponto que é necessário abrir a cabeça para ouvir tudo. Ele próprio dizia que se sentia injustiçado. Afirmava que, quando morresse, todos iriam atrás de suas obras. Isso aconteceu não só com ele, mas com muitos outros compositores.’’ Após o lançamento, Tânia Guarnieri retornará à Itália para retomar suas atividades como concertista na Europa.

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