CD não faz jus ao músico
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quarta-feira, 29 de abril de 1998
Marcelo Orozco Agência Folha 
Discos em que arranjos recém-feitos são sobrepostos a vocais gravados há anos e nunca lançados levam à pergunta: o artista (pela regra, já morto) resgatado aprovaria o resultado? Documento levanta dúvidas.
Por melhor que sejam as intenções do produtor Mazzola e dos músicos envolvidos (que trabalharam com Raul entre 1973 e 1976, época em que ele gravou os vocais destas faixas agora ressuscitadas), nem tudo dá certo nesta homenagem em CD.
Primeiro, a idéia de finalmente tornar real o álbum com letras em inglês que Raul sonhava lançar ficou pelo meio do caminho. Seis das 13 faixas são cantadas em português.
Então, vêm arranjos que não combinam. Parte dos novos instrumentais padece de arranjos country bem-educados demais, como os produzidos em linha por sertanejos norte-americanos e os de propaganda de cerveja brasileiros. White Wings (a versão inglesa do cantor para a imortal Asa Branca, de Luiz Gonzaga) não faz muita justiça à união country-rock-n-roll que Seixas entendia como poucos. Tanto que quis traduzir isso para a música sertaneja do Nordeste do Brasil. Só que, do jeito que está sendo lançada, White Wings não tem nem o rock de Raul nem o suingue com pé no chão de Gonzagão. Além disso, É Fim de Mês perde o ambiente hilário de batucada em frigideira da gravação que saiu em 1975 e recebe um postiço arranjo funkeado.
Faria a alegria de Fernanda Abreu, mas acabou com a cara do que motivou Raul a compor Se o Rádio Não Toca para incentivar insatisfeitos a mudar de estação quando o que está no dial não agrada.
Outros arranjos acertam. A orquestração da balada de abertura Love Is Magick tem um clima John Lennon. E o folk-rock de Morning Train (O Trem das Sete) e Orange Juice (SOS) não fica devendo a bandas atuais britânicas e norte-americanas que seguem a mesma linha.
Se bem que Orange Juice traz uma das muitas malandragens benignas que Seixas praticava para compor. Em sua versão em português, a música já era uma clonagem de Mr. Spaceman, do grupo norte-americano Byrds. Em inglês, a semelhança fica ainda mais estranha.
Quanto às versões para o inglês, descobre-se que Raul nasceu no país certo. Apesar de bem adaptada, Fools Gold é uma pálida tentativa de ser Bob Dylan. Não chega perto do desabafo potente de sua canção-mãe, Ouro de Tolo, onde o artista se mostrava bem mais seguro e solto como um Beto Dilan. Ou melhor, como Raul Seixas, que é o que ele soube ser muito bem.


