CD, livro e filme comemoram os 50 anos do trio elétrico
CD, livro e filme comemoram os 50 anos do trio elétrico3/Mar, 15:03 Por Ricardo de Souza São Paulo, 03 (AE) - Numa tarde de 1950, os amigos baianos Adolfo Nascimento e Osmar Macedo entraram na lojas de instrumentos musicais A Primavera, em Salvador. Olha daqui, olha dali, e os dois finalmente escolheram uma guitarra. Contudo, para desespero do vendedor que os atendia, começaram a quebrar o instrumento. Pouco depois, com a peculiar serenidade baiana, Osmar explicou ao gerente: "Fique calmo, nós vamos pagar, mas só queremos o braço da guitarra". Aquele exato momento desencadearia, no mesmo ano, uma revolução na música baiana e brasileira. Nascia ali o trio elétrico de Dodô e Osmar. Para marcar os 50 anos de criação dessa que é uma das maiores manifestações culturais da Bahia, os filhos de Osmar - Aroldo, Armandinho, André e Betinho - lançaram o CD "O Jubileu de Ouro - Armandinho, Dodô e Osmar", pelo selo Geléia Real, de Flora Gil, mulher de Gilberto Gil. Mas há mais novidades para a festa, que começa amanhã (04). No lugar do tradicional caminhão, foi criada uma réplica do famoso Ford-fubica 1929, no qual Dodô e Osmar sacudiram, pela primeira vez, uma multidão ao som irresistível do pau-elétrico, instrumento inventado pela dupla e que se tornou precursor da guitarra baiana. "O som será o mesmo, em dolby, mas a surpresa será o fubicão, que deu um trabalho danado para construir", conta o filho de Osmar, Aroldo Macedo, responsável pela produção musical do CD. Durante a saída do trio - que pela primeira vez vai ocorrer durante os cinco dias de carnaval - será feita uma homenagem a Moraes Moreira, primeiro cantor a soltar a voz num trio elétrico e que faz seu retorno ao carnaval baiano. Livro e documentário - Paralelamente ao carnaval, foi publicado um livro e está sendo produzido um documentário sobre a história do trio elétrico. O primeiro, intitulado "50 Anos de Trio Elétrico", foi escrito pelo compositor e dramaturgo carioca Fred Góes. A obra - patrocinada pela Copene Petroquímica Nordeste S.A. - foi escrita inicialmente como dissertação de mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1982. A luxuosa edição foi revista e ampliada, acrescentando-se entrevistas com artistas, material iconográfico cedido pela família de Dodô e Osmar, um texto sobre a história do trio elétrico e do carnaval baiano e um depoimento inédito de Caetano Veloso. O autor narra os primórdios do trio, em 1950, quando Dodô e Osmar se inspiram na apresentação do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas, do Recife, que agitou o povo baiano com o autêntico frevo de Pernambuco. As comemorações pelo aniversário de meio século do trio vinha sendo planejada pelo próprio Osmar, morto em 1997. "Desde 1994 meu pai já sonhava e falava dessa data", conta Aroldo. "Ele dizia: 'Que Deus me dê forças para chegar ao ano 2000'". Não chegou, infelizmente, mas seus quatro filhos deram continuidade aos seus planos. O CD "Jubileu de Ouro" é uma celebração à força e originalidade da guitarra baiana e à pluralidade sonora criada por Dodô e Osmar. O disco só traz uma regravação: "Chame Gente", de Armandinho e Moraes Moreira, que hoje dá nome ao trio elétrico do cantor. A faixa conta com participações especiais de Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Carlinhos Brown, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Ivete Sangalo, Durval Lellys e Ricardo Chaves. "Na música, foi inserida uma gravação original de Osmar tocando guitarra havaiana", conta Aroldo. O CD também conta com um pot-pourri com os clássicos "Bolero" (Maurice Ravel), "Flauta Mágica" (Mozart), e "Vôo do Besouro" (Nicolai Kosakov). Sem falar de interpretações de "Something", de George Harrison, e do hit baiano "água Mineral", de Carlinhos Brown, que se tornou sucesso com o grupo Timbalada. Uma das especialidades de Dodô e Osmar era promover essa miscelânea musical, partindo de composições próprias até chegar ao rock e ao erudito. "Ele começou a fazer isso nos anos 50 e até hoje o povo adora", garante Aroldo. Sem modismos - O apego às características básicas do trio elétrico é um motivo de orgulho para os filhos de Osmar. "Nesse tempo todo, fizemos o que aprendemos com nosso pai, sem apelar para modismos", garante Aroldo. "A partir dessa coisa pop criada por eles, nasceram quase todas essas bandas que hoje fazem sucesso no carnaval da Bahia". Essa "coisa pop" a que Aroldo se refere é adoção pelo trio elétrico de músicas até então estranhas ao carnaval baiano. Músicas de gente como Jimi Hendrix e os Beatles. Mais tarde, nove entre dez trios baianos fizeram o mesmo. "Até 1975, o que se via eram cópias de Dodô e Osmar", afirma Aroldo. Depois, os filhos reforçaram as inovações, incrementando o som pop com a utilização de bateria, contrabaixo e outros instrumentos que na época estavam restritos às bandas de rock. A participação de Moraes Moreira na trajetória do trio de Dodô e Osmar é também lembrada com carinho pela família Macedo. "Tratamos Moraes como um irmão desde os tempos em que vinha para Salvador e ficava em nossa casa", revela Aroldo. Era a década de 70, época em que o cantor baiano e os filhos de Osmar ainda eram adolescentes sonhando com a carreira musical. "Meu pai adaptou o som do trio para a voz e convidou Moraes para cantar; e ele ajudou muito com sua inteligência e letras geniais". Em sua estréia, cantou "Pombo-Correio", escrita por ele em 1977 a partir da música composta em 1953 por Osmar. O cantor e compositor será um dos convidados ilustres do trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar no carnaval deste ano. Contudo, Moreira vai comandar, ao lado de Gilberto Gil, o trio "Chame Gente", cuja construção está sendo supervisionada pela produtora Caco de Telha, da cantora Ivete Sangalo. O trio terá três palcos e uma arquibancada para convidados. "O Chame Gente será um trio sem cordas, feito para o povo, com a qualidade técnica que o carnaval da Bahia merece", diz Moreira. Diferentemente de outros trios, o Armandinho, Dodô e Osmar vai alterar seu trajeto este ano. A mudança do local do desfile - passou da Praça Castro Alves para a Barra - causou um mal-entendido entre os foliões. Muita gente interpretou a notícia como o fim do encontro dos trios na praça. Não é verdade. A tradicional confraternização continua a ocorrer, só que sem a presença do trio de Dodô e Osmar, que, em virtude das comemorações, optou por um local mais amplo. "Vamos para a Barra apenas por uma questão de espaço, já que na Castro Alves fica muito apertado", esclarece Aroldo. Veículo poderoso - A influência da invenção dos dois amigos pode ser vista em todo o País. Hoje, proliferam as conhecidas micaretas, que animam carnavais fora de época em todos as capitais brasileiras, de São Luís a Porto Alegre. O trio elétrico tornou-se também um poderoso veículo de comunicação de movimentos políticos, sindicatos e até mesmo da Igreja Católica. Para quem não se lembra, padre Marcelo Rossi e companhia já subiram em caminhões para cantar suas músicas religiosas. Essa dimensão gigantesca que o trio elétrico ganhou no carnaval e o lucro que proporciona - rende à capital baiana cerca de R$ 100 milhões durante os cinco dias de festa - não sobe à cabeça dos Macedos. Eles dizem que o dinheiro nunca foi um objetivo de Osmar e Dodô. "Meu pai ganhava a vida com seu trabalho na construção civil e metalurgia", explica Aroldo. "Ele e Dodô se contentavam em espalhar alegria pelas ruas". Uma das músicas do novo CD da família Macedo, "Tecnologia Tropical", de Armandinho e Fred Góes, homenageia de forma precisa essa alegria: "Toda vez que ouvir tocar um trio/ um trio elétrico/ seja aqui ou em qualquer lugar/ lá estará o meu velho Osmar/ junto com Dodô revolucionou/ o carnaval brasileiro".





