São Paulo, 24 (AE) - O universo pop sempre tem uma pretensão subliminar: a de conceber repentinamente uma feliz reunião de canções que, não pretendendo mudar o mundo nem mesmo a vizinhança, se torne símbolo de seu tempo. Algo como os Bee Gees fizeram em 1978 e Michael Jackson em 1986.
Desafortunadamente, "Bury the Hatchet" (Universal Music), o novo disco dos Cranberries, não vai colocar a banda nesse Olimpo ocasional do pop. É certo que "Promises", o primeiro single e também a música mais tocada nas rádios, vai fazer eco durante um bom tempo por causa dos "êeeeeeeeeeees" e "ôoooooooooos" de Dolores ORiordan, à moda de Sinead OConnor.
"Bury the Hatchet" tem um título-cabeça. Significa algo como "cessem as hostilidades". Mostra "preocupação social", não muita para não turvar a voz de fadinha de Dolores, nem tão pouca que faça o grupo parecer inevitavelmente alienado.
Sucedem-se tecladinhos mais que conhecidos e guitarrinhas mais que adocicadas, próprias para quem quer "ficar na cama até domingo", como diz a letra de mais uma balada da banda, "Just My Imagination". Militando contra "falsas sensações de segurança" e contra amigos que mudam estranhamente, sem motivo algum, eles são apenas garotos cujos dilemas existenciais não enchem sequer um diário com a capa espetada por broches.
Musicalmente, tudo parece meio descolado de alguma coisa original. E nem parece assim tão bem descolado. O riff de "Desperate Andy" saiu de alguma sobra de estúdio de Passenger, de Iggy Pop, mas o original é muito superior. "Fee Fi Fo" é mais uma sombra de Sinead OConnor, falando sobre abuso sexual de menores.
Mas algumas faixas despretensiosas até que servem para esquentar o espírito. "Dying in the Sun", a 13.ª canção entre as 14 do disco, é uma dessas coisas. O tecladinho juvenil de Dolores e sua voz solar restam como uma dessas belas manhãs de sol ardido e ineficaz que andam se repetindo por aqui.

mockup