São Paulo, 26 (AE) - Fadado ao sucesso, o sambão-pop "Mala & Cia.", com levada que sincroniza a bateria programada pelo produtor Liminha com a bateria de fato de César Farias, pega carona na onda daquilo que Chico Buarque chamou de "canções de desamor". Chico usou a expressão referindo-se ao seu também samba "Injuriado". Caetano Veloso, no disco "Livro", tem um canto de desamor, outro samba, "Não Enche".
O de Lulu fica mais de perto do de Caetano: "Enquanto for assim, já falei, quero que você me esqueça/ Saia, desapareça da minha vida/ Tá na batida errada/ Atravessou o tempo/ Tá cuspindo pro alto/ Andando contra o vento."
"Calendário", o novo disco de Lulu Santos, é, mais uma vez, o híbrido típico do compositor, sua combinação muito pessoal daquilo que é chamado de MPB com aquilo que é chamado de pop. O tratamento instrumental de "Fogo de Palha", a faixa de abertura, esconde - estiliza, seria melhor dizer - um samba-canção de boates antigas. Mas não é só isso.
Lulu tem inigualável talento para compor refrões alegres e dançantes, como o de "Bolado" - todas as músicas do disco são dele e a única parceria é com Nelson Motta, em "Eu não". Os versos de Nelsinho voltam às canções de desamor: "Eu é que não vou ficar aqui chorando/ Enquanto a vida vai passando batida rumo ao futuro." A remissão imediata, aqui, é ao "Movimento dos Barcos", de Jards Macalé e José Carlos Capinam ("Não sou eu quem vai ficar no porto, parado, não").
Bem, essa é uma maneira possível de olhar "Calendário" e todo o trabalho de Lulu Santos - buscar no disco e na obra referências retrabalhadas, moldadas ao estilo pessoal do compositor, que evolui numa linha tangencial à da MPB clássica com bom gosto e evidente prazer. Outra maneira é deixar essas questões de lado e ouvir só pelo prazer que Lulu transfere ao ouvinte. "Calendário" é bom, de forma ou de outra.

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