São Paulo, 24 (AE) - Para compor, Cazuza dizia que não planejava absolutamente nada. Quando menos esperavava, as coisas tinham ocorrido. Após dez anos de sua morte, Rodrigo Pitta e Daniel Ribeiro, paulistas de 23 anos e diretores do espetáculo musical "Cazas de Cazuza" (em cartaz até domingo), procedem de um jeito parecido com o do poeta. "Agora, quando a inspiração vem, sou caxias mesmo; sento à mesinha para trabalhar", definiu-se Cazuza. Há ainda outras semelhanças. É engraçado como Pitta, diretor-geral e autor da peça, se refere da mesma forma livre aos acontecimentos desencadeados pelo sucesso da sua obra. A cada frase que pronuncia solta a expressão "é louco", assim como Cazuza quando se referia às suas influências literárias, "completamente loucas". Pitta começou a vida escolar três anos adiantado. Estudava com o irmão de Ribeiro. O encontro artístico (e a amizade) só ocorreu na escola de inglês Cultura Inglesa, há oito anos. Nesse local, produziram sete espetáculos musicais. "Aos 17 anos, já éramos diretores", contam.
A criação de "Cazas..." foi movida pelo ímpeto juvenil de ambos. Pitta ficou envolvido intensamente com a obra do poeta por cerca de seis meses. "Absorvi tudo num tempo curto, com a ótica diferente do fã que o acompanhou desde o início do Barão Vermelho", afirma. "Ao mesmo que eu tinha a preocupação profissional de fazer uma adaptação autêntica de acordo com o Cazuza, sofria transformações pessoais, por causa das reflexões presentes nas suas músicas".
Em um dia, depois de muito estresse, Pitta fez o roteiro. Ligou para o amigo imediatamente e propôs: "Vem pra cá
pois precisamos amarrá-lo com as canções". A sua ansiedade, que o faz ser mais falante que Ribeiro, foi decisiva. "Esse tipo de atitude do Rodrigo fez com que eu me certificasse da minha capacidade de ser diretor musical", informa. Prova disso é a realização do CD com a trilha sonora do espetáculo, pela Som Livre. Eles têm características muito distintas, mas objetivos em comum e profissionalismo.
"É legal unir essa visão do Dani, que pensa no teatro musical com mais profundidade, até por ser ator e músico, com o meu lado showbizz, de ter muita força para realizar as coisas". Além da atitude típica de jovens empreendedores e o laboratório feito na Cultura Inglesa, somam-se à essas experiências a vivência no exterior. Pitta morou oito meses nos Estados Unidos. Lá, estudou direção de teatro musical na American Music and Drama Academy. Ribeiro morou dois anos.
O seu sonho era fazer parte do elenco de "Rent", de Jonathan Larson - ele chegou a ser aprovado em uma audição para o elenco do espetáculo norte-americano. Na recente versão brasileira, ele faz o persongem Mark Cohen, um videomaker recém-abandonado pela namorada. Pitta foi ainda o diretor da bem-sucedida colagem de musicais "Pocket àpera", visto por cerca de 20 mil pessoas, no ano passado. Ribeiro era o diretor musical do espetáculo. "Cazas...", com os seus sete personagens que moram de num prédio de apartamentos do Baixo Leblon, na zona sul do Rio, mostra histórias convincentes.
Elas traduzem, de forma simples e imediata, a essência da poesia marginal, intensa e complexa de Cazuza. "A linguagem do teatro musical é muito interessante, tem seus excessos, mas sabe comunicar-se com muita facilidade com as pessoas", acredita Ribeiro. Agora, eles têm consciência da responsabilidade de manter a qualidade dos seus trabalhos e "não pirar com os elogios". Pitta pretende lançar seu livro de poesias, "Leros, Poesia e Prosa", que começou a escrever antes da peça. E Ribeiro está produzindo os arranjos para o CD do ator Lulo Scroback. Eles querem viver de sua arte, assim como o personagem Enrico. Serviço - "Cazas de Cazuza". Texto e direção de Rodrigo Pitta. Sexta e sábado, às 22 horas; domingo, às 20 horas. De R$ 20,00 a R$ 45,00. Tom Brasil. Rua das Olimpíadas, 66, tel. 820-2326. Até domingo

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