Causa e efeito
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Márcio Maio<br>TV Press 
A imagem que Amora Mautner passa é de uma pessoa firme e autoconfiante. Mas, às vésperas de ver "Joia Rara", a nova novela das 18 horas da Globo, no ar, a diretora-geral deixava transparecer toda a sua expectativa e curiosidade em relação à repercussão da estreia.
Depois de surpreender com uma textura impecável em "Cordel Encantado", exibida em 2011, e ganhar muitos pontos na emissora com o tom obscuro e ritmo de série de "Avenida Brasil", agora Amora aposta alto no naturalismo. A ponto de, no Nepal, fazer seu elenco improvisar diante de dezenas de monges reais que aceitaram substituir a figuração da novela, que aborda a filosofia budista em sua trama central. "Eu tinha certeza de que não daria para fazer se não fosse assim. Conversei com todo mundo, principalmente com a Mel Maia, porque a naturalidade era fundamental ali", lembra.
Principal nome do núcleo de Ricardo Waddington na Globo, Amora é uma das poucas mulheres à frente da direção de dramaturgia. Divide esse posto na emissora apenas com Denise Saraceni, que assina a direção de "Saramandaia", e com Cininha de Paula, parceira de Miguel Falabella em "Pé na Cova". Mas jura que não há portas fechadas para o gênero feminino na função. "Daqui a pouco, vamos ver um monte que estão se formando. Há uma ideia de que precisa ser muito durona. E, de fato, você tem de mostrar uma postura firme e segura. Mas isso vale para várias outras profissões", avalia.
Vocês gravaram parte de "Joia Rara" no Nepal. Como foi a experiência?
Algo único. Lá, tivemos a oportunidade de gravar só com monges de verdade. Foi uma conquista que demorou dois meses, mas eu tinha certeza de que não daria para fazer com figuração. Gravei momentos até neorrealistas, de nem ensaiar com as pessoas locais e gravar como se fosse um documentário. Ensaiava a Mel Maia sozinha e avisava que, se alguém reagisse diferente, ela improvisaria, porque eu queria pegar a realidade. Acho que consegui.
Você é diretora-geral e o Waddington, de núcleo. Onde começa e termina o trabalho de cada um?
Ricardo é produtor da novela, ele não dirige. Temos essa parceria já há algumas novelas. Ele produz e eu conceituo e dirijo. Ele me ajuda em tudo que preciso, mas é um produtor. Ricardo já está na produção de outra novela, "Além do Horizonte", em que promove um diretor nosso, o Gustavo Fernandez.
Você bateu muito na tecla da escalação da Bianca Bin e da Mel Maia. Por que fazia questão delas no seu elenco?
Eu sempre quis a Bianca Bin. Até fiquei na dúvida no começo porque, como o Bruno Gagliasso interpretava o vilão e ela, a mocinha em "Cordel Encantado", não queria repetir o par. Cogitei outras pessoas, mas ela não saía da minha cabeça. Cheguei a sonhar com isso. Então, decidi ignorar e, se as autoras permitissem, eu ia colocar ela. Elas toparam. Já a Mel eu guardei por dois anos para "Joia Rara". Eu, a Thelma e a Duca estávamos já com essa novela em conversa na época de "Avenida Brasil" e a Mel faria outras novelas na sequência. Pedi ao Manoel (Martins, diretor artístico da Globo) para segurar ela. Eu sempre a vi como a nossa "Joia Rara". Ricardo me ajudou nisso porque queríamos que ela fosse a protagonista. Ela é um fenômeno, tem um carisma que poucos têm e seria desperdício não aproveitar.
São poucas mulheres na direção-geral de novelas. Falta interesse por parte delas ou é um meio mais fechado para o sexo feminino?
Temos poucas hoje, mas você vai ver muitas surgindo no futuro. Acho que é algo que está acontecendo agora. Quando eu entrei na Globo, só tinha a Denise Saraceni. Era eu e ela. Eu vim com 19 anos, fui assistente até os 23, quando me tornei diretora. Hoje, tenho 37 anos. Quando comecei, não tinham exemplos para seguir, mas não tive dificuldades. Eu acho que essa é uma coisa mais holística da vida. As mulheres estão ocupando cargos que, antes, não ocupavam. Quem imaginou que teríamos uma mulher presidente? As próprias autoras de tevê começaram a pipocar mais agora. Existiam antes, mas eram mais homens escrevendo.
Qual é a principal marca da sua direção?
É na paleta que começo minha criação. Faço um conceito onde ninguém sai da minha paleta. Não tem nenhum objeto de cena verde nessa novela, por exemplo, porque não está na minha paleta. E também outras cores que determinei que não existem. Isso dá uma unidade à novela. A segunda coisa é a organicidade do elenco. Meu maior trabalho é tirar isso deles. É fazer, mesmo no estúdio da Globo, sair aquela coisa formal. Quero o mais orgânico deles porque considero que é a energia que vai ao ar. Tento unir a minha estética com uma organicidade do elenco. Eu exercito a não-marca, essa é a minha meta.
É mais caro fazer uma novela nos seus moldes?
É um pouco mais caro, mas não muito mais. Gasto muito tempo na fotografia, o que era um tabu antigamente. Pregava-se que você só gravava 25 cenas de estúdio se usasse uma luz aberta. E eu consegui mostrar que não é verdade. Em "Avenida Brasil", eu gravava isso. A Globo investe no talento, na democracia, desde que você traga qualidade. O meu gosto e estilo é esse, eu não tenho como ser diferente. Valorizo a luz, gasto um tempo maior que os outros na pré-produção. Uma vez que a novela está conceituada, está com a paleta e os atores no tom, a gente vai para o "set" e grava em um ritmo bom, entra no processo industrial. Se eu não tenho esse conceito na cabeça, aí dificulta.
Em pouco tempo como diretora-geral, você já virou uma referência no meio artístico. Como lida com essa posição?
Eu não me vejo como um ícone na direção. O que eu percebo é que tenho uma liberdade imensa que me foi dada pelo meu pai, Jorge Mautner, que é um tropicalista. E essa liberdade é um diferencial porque consigo não me oprimir. Talvez algumas mulheres se oprimam, mas eu tive essa natureza e uma educação diferente, uma infância atípica que me fez ser quem sou hoje.
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