O destino é um cavalo que segue galopando como um louco, deixando para trás nuvens de poeira. Desaparece do campo de visão em questão de minutos e, quem assiste ao galope, não consegue se desvencilhar da cena pelo resto da vida. A poeira gruda nos olhos digerir o sentido da imagem transforma-se numa espécie de maratona em direção à morte.
O destino como a imagem de um cavalo em disparada gravada na memória, deixando os olhos vermelhos pela poeira, pode ser encontrado em ''Cidades da Planície'', romance do escritor norte-americano Cormac McCarthy. Lançado pela Companhia das Letras, a obra encerra a chamada ''trilogia da fronteira'' iniciada com os livros ''Todos os Belos Cavalos'' (1993) e ''A Travessia'' (1999).
Em ''Cidades da Planície'', McCarthy apresenta os personagens John Grady e Billy Parham, protagonistas dos outros dois romances, em uma nova etapa de suas vidas. Na década de 50, próximos dos 20 anos de idade, os amigos agora trabalham no doma de cavalos num rancho entre os Estados Unidos e o México.
Caubóis por natureza, trabalham duro para no, fim de semana, tomar uns tragos e visitar bordéis. O drama tem início quando Billy se apaixona por uma prostituta mexicana, jovem de 15 anos que trabalha num luxuoso bordel. Um amor problemático que acabará levando os amantes à destruição. Se por um lado Billy é o símbolo da liberdade, por outro a moça representa a escravidão e a paixão uma força luminosa que pode provocar a morte.
A princípio, o enredo traçado per Cormac McCarthy parece batido e até piegas um homem procurando tirar a amada de um prostíbulo para se casar com ela. Mas o autor não se prende apenas a esse contexto. Vai mais além. Esse talvez seja o grande mérito de sua narrativa. Apresenta como o homem pode se relacionar com seu destino sempre procurando encarar a vida com a maior honestidade e sinceridade possíveis.
A linguagem utilizada pelo autor é seca e direta, como é árida a região em que os personagens vivem. Como é bruto o trabalho executam, como é rígido o mundo que vivem. Ao mesmo tempo, consegue inserir na narrativa elementos emocionais de extrema compreensão da verdade: ''Acho que a gente pode treinar um galo para fazer o que a gente quer. Mas ele nunca vai ser teu. Tem uma maneira de treinar um cavalo que vira ele. Do jeito dele. Um bom cavalo faz uma idéia das coisas por ele mesmo. A gente enxerga o que se passa no coração dele. Não faz uma coisa quando a gente está observando ele e uma outra quando a gente não está. Tem inteireza. Quando um cavalo chega a isso você dificilmente consegue que ele faça alguma coisa que ele sabe que é errada. Ele resiste. E se a gente maltrata ele é o mesmo que matar ele. Um cavalo bom tem justiça no coração.''
McCarthy parte do gênero ''western'' para compor seus romances onde as questões existenciais são discutidas por caubóis que não aparecem nos filmes de Hollywood. Homens do campo que investigam a existência da mesma maneira como os filósofos investigam o pensamento. O escritor também faz uso de uma vertente tradicional da literatura norte-americana, em que os personagens sempre estão empreendendo algum tipo de viagem. A busca de algum sentido para a existência. O deslocamento espacial como uma compensação da insatisfação psicológica.
Os três volumes da ''trilogia da fronteira'' podem ser lidos de maneira totalmente independentes. O que une suas histórias é o universo masculino comandado pela amizade e pelas forças da natureza. A infância dos personagens principais, John Grady e Billy Parham, é suprimida pela juventude e a juventude totalmente eliminada pela força do mundo adulto. Em outras palavras, eles são obrigados a envelhecer pelo chicote vida dura e pela visão do cavalo do destino. ''A Travessia'', publicado também pela Companhia das Letras, é exemplar nesse sentido.
No final de ''Cidades da Planície'', o único caubói a atingir a velhice no mundo atual torna-se um andarilho. Sempre carregando na mochila o fantasma do passado que mastiga seu espírito como gado ruminando o alimento. Ele então começa a encarar a vida como um prolongamento dos sonhos: ''A morte de cada homem é uma substituição de outro. E uma vez que a morte vem para todos não há como mitigar o medo dela exceto amar o homem que nos substitui. Não estamos esperando que a história dele seja escrita. Ele passou por aqui faz muito tempo. Esse homem que é todos os homens e que se sente no banco dos réus por nós até que chegue a nossa hora e devamos nos sentar nele.


q Cidades da Planície - De Cormac McCarthy, Editora Companhia das Letras, tradução de José Antonio Arantes, 344 páginas, R$ 32,50.

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