A três dias do final, a 57ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica de Veneza ainda não mostrou aquele concorrente que estaria mais próximo da excelência, e por extensão do Leão de Ouro. Está difícil até aqui eleger o grande filme. Os trabalhos de Manoel de Oliveira e Raoul Ruiz reúnem mais condições, mas nunca se sabe. Ontem à noite era o turno de Woody Allen e seu muito aguardado ‘‘Small Time Crooks’’, como sempre e infelizmente fora de concurso.
Ontem a movimentação também foi ao redor de Fellini. Incluído na mostra paralela ‘‘Programmi Speciali’’, o documentário ‘‘Fellini Raconta - Un Autoritratto Ritrovato’’, de Paquito Del Bosco, é um perfil do mestre das imagens sonhadas por ele mesmo. Um perfil recontado a partir de entrevistas radiofônicas dadas por Fellini ao microfone da RAI. O material recolhido cobre de 1952, ao final das filmagens de ‘‘O Sheik Branco’’, até a entrevista por ocasião do Oscar obtido por ‘‘Amarcord’’, em 1975, passando por ‘‘La Dolce Vita’’ e ‘‘Satyricon’’. Há depoimento de George Simenon, Ingmar Bergman e Frank Perry. O filme, que deve estar no Brasil para a edição 2001 do festival de documentários ‘‘It’s All True’’, organizado em São Paulo por Amir Labaki, traça com originalidade o retrato de uma inteligência criativa e livre, e também de um profissional muito exigente no seu metier.
Agora já se conhece a dinâmica do britânico Stephen Frears. Ele simplesmente não sabe - ou não quer, o que parece mais provável - escolher entre o grande espetáculo, as grandes histórias e o intimismo realista inglês. Assim, regularmente alterna as duas alternativas e os dois lados do oceano. Nos Estados Unidos, filmes de grande apelo, grande orçamento, grandes astros (‘‘Relações Perigosas’’, ‘‘Herói por Acidente’’, ‘‘Mary Reilly’’, ‘‘The Hi-lo Country’’); na Inglaterra, ‘‘Minha Bela Lavanderia’’, ‘‘A Grande Família’’, ‘‘A Van’’. Nos dois casos, de qualquer modo, um cineasta empenhado em exprimir uma poética, uma personalidade e um talento cinematográfico sempre interessantes e não raro entusiasmantes.
Em Veneza competindo com ‘‘Liam’’, Frears realiza antigo projeto originalmente destinado à televisão e a valorizar fontes culturais de regiões periféricas da Inglaterra, fora do circuito londrino. A BBC resolveu levar a produção para o cinema, transformando a série televisiva em longa-metragem. Esse transporte foi afinal possível graças à contribuição do escritor e roteirista Jimmy McGovern, um dos maiores cronistas da vida inglesa, já habituado a trabalhar com a tevê inglesa - BBB e Channel Four.
O roteiro de ‘‘Liam’’, a partir do romance homônimo, é construído ao redor de uma família católica na Liverpool dos anos 30, época de depressão econômica, desemprego e pobreza acelerada, entre outros fatores coniventes para o surgimento do fascismo. A história é praticamente contada do ponto de vista do pequeno Liam, de 7 anos. Ele cresce entre a mãe carinhosa, um pai de família responsável e dois afetuosos irmãos mais velhos. Na escola, rígidos e absurdos ensinamentos católicos, a noção de pecado como ante-sala para um inferno dantesco, as primeiras e indeléveis marcas da ‘‘culpa’’ como herança do pecado original. Em casa, o pai desempregado, a irmã empregada doméstica em casa de judeus ricos na mira do nascente movimento fascista inglês, e o irmão dando os primeiros passos em direção ao socialismo. Como disse o escritor McGovern durante a coletiva, o catolicismo exacerbado foi também terra fértil para a germinação em solo inglês do fascismo que, naquele momento, já criava raízes mais profundas em outros países da Europa.
A atenção ao detalhe humano, em Frears, é como sempre ligada a um panorama social mais amplo, à dificuldade de sobreviver, às relações interpessoais e às pressões da coletividade. Por isso não se pode negar ao cineasta, principalmente quando está de costas para Hollywood, uma integridade autoral que o coloca na vanguarda do cinema anglo-saxão.

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