Católicos celebram a Páscoa pela internet
Rituais milenares praticados durante a Semana Santa são transmitidos pela internet durante o isolamento social que visa conter a pandemia do novo coronavírus
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de abril de 2020
Rituais milenares praticados durante a Semana Santa são transmitidos pela internet durante o isolamento social que visa conter a pandemia do novo coronavírus
Marcos Roman - Grupo Folha 
A celebração da Páscoa neste ano de 2020 ficará marcada para sempre na história do catolicismo em todo o mundo. O isolamento social imposto para conter a pandemia do novo coronavírus obrigou a Igreja Católica a buscar alternativas para a realização de rituais milenares praticados por milhões de fiéis durante a Semana Santa. Em Londrina, grande parte das paróquias optou por celebrações transmitidas pela internet.
“Acho que as igrejas nunca estiveram tanto na internet quanto agora. As tecnologias estão aí à disposição e agora a igreja foi obrigada a acordar para isso. Nesse sentido foi positivo porque a igreja católica está crescendo para o uso das mídias sociais, principalmente para a transmissão de missas e outros eventos. Um desafio que, com certeza, também traz algo de bom”, avalia Padre Romão Martins, pároco da Paróquia São Vicente de Paulo, localizada no Parque Guanabara, região central de Londrina.
Ele destaca que na igreja que comanda tem transmitido missas pela página paróquia no Facebook e também pelo canal aberto no Youtube. “As igrejas todas tiveram que fechar e aquelas paróquias que têm condições de transmitir de alguma forma as celebrações, estão transmitindo a Santa Missa. Aqui na Paróquia São Vicente de Paulo nós já tínhamos um sistema de transmissões instalado na igreja. Então nós estamos transmitindo as missas dominicais e agora na Semana Santa, as principais celebrações serão transmitidas neste sábado (11), às 20 horas, e no domingo, às 10 horas da manhã”, avisa.
Padre Romão salienta que os rituais praticados nos dias que antecedem a Páscoa são os eventos mais importantes do ano para a Igreja Católica. “Celebramos na Páscoa o principal evento da fé cristã, que é a ressurreição de Jesus. A ressurreição é o que dá o mais importante sentido à fé cristã. O próprio São Paulo já diz: se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé. Por isso que a semana da ressurreição é chamada de Semana Santa. A Páscoa é mais importante até que o Natal”, enfatiza.
Ritos santificados
O religioso explica que os ritos de Páscoa são iniciados com o Domingo de Ramos. “Nós começamos com o Domingo de Ramos lembrando que Jesus pouco antes de ser condenado entrou em Jerusalém e foi aclamado com ramos por um grande número de pessoas que gritava: 'Hosana ao grande filho de Davi.' Então no Domingo de Ramos nós fazemos memória a esse dia”, esclarece.
O mais importante ritual da Semana Santa é o Tríduo Pascoal. “Chama tríduo porque é composto de três dias, começa na quinta-feira à noite com a instituição da celebração da Eucaristia, que foi a última ceia e naquela ocasião Jesus lavou os pés dos apóstolos mostrando-se servidor e depois dizendo: 'Eu, o Senhor e mestre lavei os seus pés, façam o mesmo.' Esse lavar os pés é na verdade servir a quem precisa. Quem faz o bem, quem ama, quem usa a caridade de alguma forma está lavando os pés dos outros. E a eucaristia que Jesus instituiu é para nós um contínuo lava pés. Cada vez que eu comungo, que eu participo de uma santa missa eu sou agraciado, eu sou servido pela pessoa de Jesus que me dá o melhor dele, que é o corpo e o sangue na Eucarística, no pão e vinho consagrados”, detalha.
O pároco salienta que a missa que abre o Tríduo Pascoal tem alguns diferenciais em relação às outras celebrações. “No final ela termina com a vigília pascoal. A Eucaristia é levada para um lugar reservado e ali é feita uma vigília com Jesus no pão consagrado. Recordando que Jesus quando foi rezar angustiado, levou alguns apóstolos que acabaram dormindo durante a vigília. Então quando nós fazemos vigília é lembrando aquele tempo de Jesus e nos disponibilizando a estar do lado Dele. Esta celebração de quinta-feira se encerra com a vigília mas na verdade ela não teve fim , pois não teve a benção final. Ela continua mesmo com cada pessoa indo para sua casa”.
Na Sexta-Feira da Paixão acontece a celebração da adoração da Santa Cruz, que tem duração de três horas. “É claro que ninguém adora a cruz como instrumento de morte, mas a adora como instrumento de obediência, um instrumento de salvação, de amor e de fidelidade. A importância da cruz está no fato de que Jesus passou por ela e a salvação que nós tanto cremos veio através da cruz. Lembrando da entrega de Jesus nela, nós lemos o evangelho todo da Paixão de Cristo neste dia. Ao final da celebração depois de algumas orações feitas em diversas intenções as pessoas vão para casa e essa celebração também não tem um encerramento. Então todos vão para casa e ainda neste clima de resguardo até o sábado a noite”, diz o padre.
No sábado, terceiro dia do Tríduo Pascoal, é realizada a grande missa da benção do fogo e da água batismal. “O fogo que é abençoado lembra que Jesus é a luz do mundo. Essa celebração começa com o ritual que tem nove leituras de Salmos e tem a benção da água, que é a renovação das promessas do batismo que nos faz ressuscitar com Cristo para uma vida nova. E aí sim a missa se encerra com a benção a toda a comunidade: 'Aleluia, aleluia. O Senhor ressuscitou!' Essa já é a grande missa da ressurreição, embora ainda não seja Domingo de Páscoa. E no domingo se celebra a missa normal, já com a leituras do rito pascoal que é quando a sepultura é visitada pelas mulheres e os apóstolos vão fazendo a experiência do Senhor ressuscitado”.
Sintonia virtual
Padre Romão ressalta que o fato de as igrejas estarem fechadas para evitar aglomerações durante a pandemia da Covid-19 não impede as pessoas de estarem sintonizadas com as celebrações religiosas. “As pessoas estão distantes fisicamente da igreja templo. Mas a igreja está onde as pessoas estão. Dizia Santo Agostinho que onde está o batizado está a igreja. Nós temos trabalhado muito para que as pessoas se conscientizem que a casa de cada pessoa é uma igreja doméstica e que participando das celebrações pelas mídias sociais, as pessoas também estão celebrando em sintonia com a igreja”, conclui.


