''Seu Celso, quando construiu a primeira oficina para os ônibus, fez a cobertura com estrutura de madeira, e bem alta, embora os veículos da época fossem baixinhos. Ele fez isso porque era um homem de visão'', conta o gerente de manutenção da Viação Garcia, Ildefonso Aparecido da Silva, ao apontar para as estruturas ainda firmes, tantas décadas depois. O relato é uma prova de como a história fica impregnada nos objetos, mas não significa nada sem a memória.
Silva foi um dos funcionários da Viação Garcia que um dia resolveu guardar uma máquina obsoleta ao invés de vendê-la como sucata. Mas esse espírito de preservação do passado vem dos próprios fundadores da empresa, Celso Garcia Cid e José Garcia Villar.
O conceito foi sendo repassado adiante e, atualmente, a empresa dispõe do recém-inaugurado ''Espaço Memória Viação Garcia'', com ônibus, equipamentos, peças, fotos, documentos e prêmios acumulados ao longo dos 75 anos desde a sua fundação. Dos 5.500 itens catalogados, cerca de 400 estão à disposição do visitante, que, junto com a trajetória da empresa, aprende um pouco mais sobre a história tanto da cidade quanto do transporte de passageiros no Brasil.
''O objetivo maior é preservar a nossa memória, não só para nossos funcionários, mas para a população em geral e as gerações futuras. Mostrar as dificuldades enfrentadas e que, se chegamos onde estamos hoje, isso foi fruto de muito trabalho'', explica Guilherme Garcia Cid Sachetim, sócio e advogado da empresa, que hoje tem hoje mais de 2.500 funcionários e está entre as cinco maiores do ramo no Brasil.
A fachada do espaço, feita em peroba rosa (de demolição), é uma reprodução da oficina do mecânico José Ziober. Foi lá que, em 1934, um caminhão Ford TT foi transformado no xodó da empresa (e da cidade): a jardineira Catita. O veículo, como não podia deixar de ser, é um dos destaques da mostra, cercado por manequins com roupas de época. Ao lado, está o Ford antes da transformação, e que transportou muita carga nos anos 1930.
Os ônibus que marcaram as décadas seguintes também estão lá. O ''Pavão'', dos anos 1940, era movido a gasogênio. A tecnologia foi desenvolvida pela própria Garcia para enfrentar o racionamento de combustível durante a Segunda Guerra. Já da década de 1950, o ''Geraldão'' tinha frente reta para diferenciar o transporte de passageiros dos caminhões. O ''Fenemê'' da geração seguinte inovou ao transportar até 37 passageiros. Depois, em 1980, um ''Diplomata'' transportaria o Papa João Paulo II em sua passagem pelo Paraná. ''A empresa não só preservou o veículo como até o assento onde SUA SANTIDADE se sentou'', garante Sachetim.
O espaço conta ainda com um módulo reproduzindo a primeira oficina da empresa, com peças e ferramentas originais e outro em homenagem aos fundadores da Viação Garcia e a seus funcionários. E, nas vitrines, os primeiros documentos, equipamentos, ferramentas, materiais, uniformes e troféus.
O Espaço Memória está aberto para visitas monitoradas (previamente agendadas) de estudantes e outros grupos interessados. Para agendar, é só ligar para (43) 3373-2170.

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