São Paulo, 11 (AE) - Faz uma semana que a filmagem, oficialmente, terminou. Houve até uma festa de despedida da equipe, na segunda-feira passada. Mas o diretor Cao Hamburger ainda roda amanhã (12) à noite algumas cenas de "Castelo Rá-Tim-Bum". Como são externas, dependem do tempo. Se o tempo não estiver bom, a equipe tenta de novo terça-feira, mas todos estão empenhados em terminar amanhã o trabalho. Na quinta, Hamburger rodou cenas adicionais com Matheus Nachtergaele e Pascoal da Conceição.
"Eu faço o Rato, um personagem novo", explica Nachtergaele. "O Pascoal faz o Abobrinha, que já existia na série de TV". O Rato e Abobrinha integram o núcleo do mal. Gravitam em torno de outra personagem desconhecida do público da TV e que o diretor criou especialmente para o filme - a malvada Losângela, interpretada por Marieta Severo. Hamburger abriu o set de filmagem para a imprensa, mas proibiu fotos de Marieta como Losângela. Quer surpreender o público. Surpreender e conquistar. Produção da A.F. Cinema e Vídeo (de Alain Fresnot) orçada em R$ 7,6 milhões, "Castelo Rá-Tim-Bum" deve chegar às telas em janeiro, com distribuição da Columbia. O filme baseia-se na consagrada série da TV Cultura. A estimativa é fazer pelo menos 1 milhão de espectadores. A maioria, claro, é de crianças, mas muito adulto vai querer levar o filho ao cinema só para conferir o resultado. Há uma expectativa muito grande em relação ao "Castelo". Ela não diz respeito somente ao cinema infantil. A série era tão boa que fazia sucesso também entre os adultos.
O produtor Fresnot e o diretor Hamburger montaram uma produção tão caprichada que será realmente uma pena se não estourar. "O Cao é um símbolo do que se pode fazer de bom para a criança na TV", resume o ator Matheus Nachtergaele, que rodou suas cenas adicionais, na semana passada, aproveitando um intervalo da filmagem de "Eu Tu Eles", com Regina Casé, em produção no interior da Bahia. Ele não era espectador assíduo da série, mas considera-se um fã. "Adorava, quando via", explica. Ficou encantado quando Hamburger criou o Rato e o chamou para o papel.
Nachtergaele, que fez grande sucesso de público e crítica no início do ano como o João Grilo da minissérie "O Auto da Compadecida", na Globo, conta como visualizou o personagem: "Ele é um vilão covarde; executa o mal que o Abobrinha planeja e vive na sombra do outro; imaginei-o como um rato mesmo". Marieta Severo é outra que está encantada com o papel. "Via muito o Castelo e nunca imaginei que um dia fosse integrar-me ao seu universo".
A reportagem teve acesso a um dia de filmagem. A cena rodada era justamente aquela em que Marieta, como Losângela, persegue Nino no interior do castelo. O garoto prepara-lhe uma armadilha e ela termina caindo. A cena teve de ser repetida algumas vezes por ajustes técnicos (de quadro, iluminação). Não por causa de Marieta: ela foi sempre perfeita. Entrava por uma porta exuberante como Losângela, no auge da sua força maligna. Escorregava no óleo que Nino espalhou pelo chão, levantava a perna e fazia o gesto de cair. Só fazia. Logo em seguida entrava a dublê, que caía de verdade.
Para fazer Losângela, Marieta submetia-se diariamente a quase três horas de maquiagem. Lente vermelha, cabelo em pé, figurino ousado. O que ela fazia durante todo este tempo? "Ficava fuxicando com a maquiadora, uma conversa de comadres que nunca tinha fim", dizia. A partir do roteiro, visualizou Losângela como uma bruxa incompetente (usa as palavras "falida" e "vigarista"), que tem de roubar a mágica dos outros para ser poderosa. E criou-a mais divertida que assustadora, até porque, como avó, não quer tirar o sono do neto
que, espera, venha a ser um fã do "Castelo" no cinema.
Boa parte da produção foi rodada num galpão em Cajamar, distante 30 minutos de São Paulo. Um imenso hangar que foi transformado em set de filmagem e no qual foram montados cinco cenários reproduzindo o interior do castelo: o hall, a biblioteca e o quarto de Nino, entre outros, todos surgidos da imaginação do diretor de Arte Clóvis Bueno, que divide o crédito com sua mulher, Vera Hamburger. Bueno impõe respeito: construiu a impressionante favela cenográfica de "Orfeu", de Carlos Diegues. Trabalha aqui num registro diferente, dando asas à imaginação. O resultado, novamente, impressiona.
Os tons escuros dominam o hall. "Você precisava ver isso aqui antes", ele diz. "Quando o filme começa, o castelo é todo claro, todo colorido; à medida que Losângela vai ampliando seu poder, tudo fica mais escuro". Decisão ousada - Enquanto a produção do "Castelo" era montada, a equipe discutia muito os detalhes, o elenco. Tinha gente que defendia que todo o elenco da série de TV fosse transferido para o cinema. Hamburger assumiu uma decisão ousada que, ao mesmo tempo, lhe parecia muito natural. Manteve Rosi Campos como Morgana, Sérgio Mamberti como dr. Victor, mas escolheu um menino de verdade para fazer o Nino, já que Cássio Scapin lhe parecia muito adulto para o papel. A escolha recaiu sobre o paranaense Diegho Kozievitch, de 13 anos. Diegho é ótimo.
"Estou aprendendo um monte", ele diz. "Todo mundo me dá a maior força". Para rodar o filme, ele se licenciou da escola e teve acompanhamento de um professor particular no set, para não perder o ano letivo. Contracenar com Marieta é a glória. "Ela é maravilhosa", afirma. Entrar para o "Castelo" é como um sonho. "Conhecia a série, mas não era telespectador assíduo porque a Cultura não é muito difundida no Paraná", justifica.
Aos 37 anos, o diretor Hamburger acumula dezenas de prêmios, recebidos em vários países, por sua atividade no cinema e na TV. A maioria deles veio por produções desenvolvidas para o público infantil. Hamburger conta que não foi premeditado. Começou a trabalhar com crianças por acaso. Deu aulas de música numa escola e começou a trabalhar com cinema. Fez curtas de animação que, embora não fossem voltados diretamente para o público infantil, agradavam às crianças. Com a roteirista Anna Muylaert, criou o "Castelo" na TV. Ela não tem crédito no roteiro do filme, que é assinado por Hamburger, José Rubens Chassereaux, João Emanuel de Carvalho, José de Carvalho, Fernando Bonassi e Victor Navas.
Da TV, Hamburger traz para o cinema uma convicção: "Quando se faz TV didática, ou cinema, é preciso cuidado; o ensinamento, o conteúdo, tem de estar na história". A de "Castelo Rá-Tim-Bum" no cinema trata do menino que tem de construir a própria história. O diretor admite que teve assessoria dos filhos. "Deram-me sugestões importantes, foram críticos", conta. Simultaneamente com a rodagem, ia fazendo a montagem, por isso está tranquilo: o filme está bem encaminhado. Mas vai ter de correr, para estrear em janeiro. "Castelo" terá efeitos especiais que serão feitos pela empresa Duran, na França. Hamburger vai acompanhar todo o trabalho na Europa.

mockup