Ao folhearmos as primeiras páginas de Catatau - obra do escritor e poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989), que foi relançada recentemente em uma edição especial de 35 anos - já percebemos que estamos prestes a embarcar em uma viagem incomum.
Aclamada por ser um marco na literatura de vanguarda dos anos 70, a história e as referências - muitas vezes bizarras - que estão contidas dentro da obra de Leminski nos permitem enxergar para além de uma simples experimentação linguística. ''No Catatau existe uma mistura entre literatura e filosofia, e isso é muito evidente. Eu acredito que o Catatau seja uma espécie de radicalização da novela filosófica'', explica o dramaturgo Maurício Arruda Mendonça, que é estudioso da obra e concluiu ano passado um mestrado sobre a abordagem literária e filosófica contida no Catatau. ''O livro é quase que uma meta-ficção histórica'', define.
Na obra, o filósofo racionalista René Descartes - vulgo Renato Cartésio - se encontra em uma situação extremamente desconfortável. Por um lado, subjetivo, ele caminha por entre os seus mais desafiantes devaneios, amplificados pelo uso de uma erva alucinógena indígena. Pelo outro lado, objetivo, ele se encontra fisicamente cercado de animais estranhos em uma selva tropical, e aguarda pacientemente pela ajuda do general polonês Krzysztof Arciszewski. Dessa maneira, perdido no meio do Brasil, carregando apenas a sua luneta em uma mão e seu cachimbo na outra, este filósofo, pai de um método racional, será confrontado pela loucura tupiniquim.
A jornada consiste em uma trama atemporal e não-linear, na qual em todo momento são apresentadas idas e vindas da narrativa, intercaladas frequentemente por algumas brincadeiras de linguagem. ''Ao mesmo tempo em que Catatau é um livro quase barroco, ele é escrito sobre uma época do século XVII, e se apropria de vários textos concebidos por volta de 1500'', diz Mendonça, tentando explicar a complexidade que encontramos quando embarcamos em suas páginas. ''O Catatau é um livro muito difícil de ler. Você sempre se encontra no limite da compreensão, da sonoridade e da língua.''
Apesar das dificuldades que atingem os leitores desavisados, a experiência literária/filosófica proporcionada pela proposta de Leminski valem os riscos da viagem. ''Hoje em dia, se um moleque qualquer pegar o livro, ele vai jogar no lixo. Por outro lado, se essa pessoa tiver um olhar lúdico sobre a escrita, não existe livro melhor'', comenta Mendonça, que acredita ser importante enxergar o relançamento da obra como um ponto de partida para uma nova forma do público enxergar os padrões literários. ''É um livro muito importante para se ler hoje, porque ele desautomatiza completamente noção que temos de literatura. Isso é fundamental.''
Serviço
- Catatau
Autor - Paulo Leminski
Editora - Iluminuras
Quanto - R$ 44 (256 páginas)

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