Catálogo mostra diversidade do cinema nacional recente
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio, enviado especial 
Brasília, 30 (AE) - Será lançado hoje, em Brasília, o catálogo "Cinema Brasileiro - um Balanço dos Cinco Anos de Retomada do Cinema Nacional". A obra, de 250 páginas, relaciona e comenta cada um dos 116 longas-metragens brasileiros lançados no mercado de 1995 até hoje. O catálogo é uma publicação da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e teve coordenação da jornalista Helena Salem, morta em agosto. Foram impressos 2 mil exemplares, que serão distribuídos a jornalistas
escolas e centros de estudos. Não haverá venda ao público.
Além dos verbetes e fichas técnicas dedicados a cada um dos longas, o livro contém quatro anexos quantitativos, fundamentais para pesquisadores e interessados em geral no desempenho do cinema nacional, com os históricos do mercado cinematográfico brasileiro nos anos 70, 80 e 90 e um quadro comparativo entre o cinema nacional e o cinema estrangeiro nos anos 1997, 98 e 99.
São números frios, mas que dão uma idéia do que tem ocorrido na indústria cinematográfica recente. Por exemplo, a produção nacional teve um pico entre 1984 e 1986, superando nesse período a marca de cem longas/ano. Depois foi descendo. De 107 longas em 1986, caiu para 35 em 1987, 28 em 1988, e 17 em 1989.
Nos anos que se seguiram à extinção da Embrafilme pelo governo Collor, o cinema praticamente parou. Foram três longas em 1992, quatro em 1993 e sete em 1994. A partir daí a marca mudou de patamar e continuou a mostrar perfil de crescimento: 12 em 1995, 23 em 1996, 22 em 1997, 26 em 1998 e 25 em 1999. Ao mesmo tempo, aumentou a participação do produto nacional na porcentagem de ingressos vendidos. De ralos 0,05% em 1992, saltou para 8,6% neste ano. Não é o ideal, mas já significa alguma coisa.
Nesse período recente, o cinema do País voltou a mostrar a sua cara, em filmes que foram mal e bem de público; que inovaram ou se conformaram com a mesmice; que buscaram a transgressão ou se acomodaram a uma pretensa vontade de mercado. Enfim, houve de tudo, em sua aparente diversidade temática. Com "Orfeu", agora candidato a uma indicação para o Oscar, Cacá Diegues reatualiza em uma favela carioca o mito ancestral do homem que vai buscar a amada morta nas profundezas do inferno. "Mauá", de Sérgio Rezende, realiza uma cinebiografia convencional do patrono do empresariado brasileiro.
Em chave oposta, "Um Céu de Estrelas", de Tata Amaral, busca dissecar a intersecção de relações pessoais tensas com uma visão ressentida da pequena burguesia paulistana."No Coração dos Deuses", de Geraldo Moraes, procura uma alternativa de infanto-juvenil, ambientando sua história de aventuras na época dos bandeirantes. "Um Copo de Cólera", de Aluísio Abranches, discute amor e relações de poder, em tom poético e radical, a partir da obra do escritor Raduan Nassar. "Dois Córregos", de Carlos Reichenbach, investe na chave lírica para falar do tempo da luta armada. Em "O Primeiro Dia", Daniela Thomas e Walter Salles falam de amor, mas também de uma sociedade em transe, que explode em violência na virada do milênio. "Matadores", de Beto Brant, não dispensa o ingrediente amoroso, mas o situa numa zona de gatos pardos, indecisa, a fronteira entre o Brasil e Paraguai.
Como se vê, o cinema brasileiro dá provas de uma diversidade temática para ecologista nenhum botar defeito. Saindo da superfície, percebe-se algum cansaço estético, com a repetição de estruturas narrativas e motes recorrentes facilmente detectáveis por debaixo do ecletismo de assuntos. Discussão estética para ser levada mais adiante.
Pelos números veiculados pelo catálogo, e nas imparciais sinopses dedicadas aos filmes, o que se vê é uma cinematografia em ascensão, saudável e plural, pelo menos até este ano, já que o horizonte visível parece carregado de nuvens. A Lei do Audiovisual, responsável pela recuperação, já não funciona como de início e os especialistas prevêem que, a partir de 2001, a curva da produção pode tomar direção descendente - se alguma coisa não for feita.
Documentários - Dois filmes documentais foram dos últimos a ser apresentados no Festival de Brasília. "Um Certo Dorival Caymmi", de Aluísio Didier, e "Senta a Pua!", de Erik de Castro. O primeiro resume em 110 minutos de puro prazer a biografia de um mestre da música, mas também de um sábio da arte de viver. Caymmi é um buda nagô, como diz Gilberto Gil. Em que pese a sua simplicidade como cinema vale - e muito - pelo personagem. Foi aplaudido com fervor. O segundo não obteve a mesma unanimidade. Traz um assunto interessante, o da saga da aviação de caça brasileira que lutou na 2.ª Guerra Mundial. Há depoimentos muito bons dos ex-pilotos, outros nem tanto, mas a montagem a que foram submetidos resulta num filme ora informativo, ora tedioso. Poderia passar num canal a cabo; nunca deveria fazer parte de um festival de cinema - o que só aumenta a sensação de injustiça feita aos belos documentários não selecionados para Brasília, como "Fé", de Ricardo Dias, e "Sobras em Obras", de Michael Favre, dedicado ao artista plástico Geraldo de Barros.


