Castro Alves pela ótica de Tendler
A integração entre a vida e a obra do poeta Castro Alves é a linha do filme homônimo do diretor Sílvio Tendler. A exibição acontece hoje, às 22 horas, no Teatro Fernanda Montenegro, no Shopping Novo Batel, na programação do 3º Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba. O filme, que só teve pré-estréia em Brasília, será mostrado pela primeira vez na capital paranaense.
O próprio Castro Alves é o narrador do longa-metragem de 70 minutos. Filme de época, ambientado no final do século passado, mostra a trajetória de vida de muito mais do que um poeta romântico, mas um dos mais importantes, senão o mais importante poeta do Romantismo brasileiro.
Muito mais do que isso, Castro Alves foi um poeta também concreto, abolicionista e republicano. Essa ambiguidade é mostrada nas suas idéias avançadas para a época. Mas eram realistas, tanto que muitas aconteceram, como a abolição da escravatura e a proclamação da República, afirma o diretor.
Baiano, viveu pouquíssimo mas intensamente. Castro Alves morreu de tuberculose aos 24 anos - viveu entre 1847 e 1871. Viu apenas um livro publicado Espumas Flutuantes, mas escreveu mais de 300 poemas que foram publicados dispersos. Era avançadíssimo. Em 1864, aos 17 anos, escreve uma carta às mulheres baianas, pedindo que comprem escravos para libertá-los, conta Tendler.
O diretor considera Castro Alves personagem síntese do brasileiro, do de hoje também. Suas idéias são atuais, defendia as artes e a cultura. Como exemplo, Sílvio cita os versos moralizar com a lira é o fim mais augusto e sublime da poesia, de Castro Alves.
A data de seu aniversário, 14 de março, é considerada o Dia do Poeta. Nesse mesmo dia, nasceu o cineasta Glauber Rocha, que morreu aos 42 anos. Glauber dizia que era a reencarnação do poeta. Mas Castro Alves era uma mistura de Glauber e Caetano, define Tendler.
Muitos dos poemas de Castro Alves foram feitos para ser ouvidos nas praças, daí seu caráter dramático, grandiloquente. Por esse motivo, o poeta não se preocupava muito com a pontuação dos versos.
O filme mostra um jovem, romântico e sedutor, rico e boêmio. Castro Alves era também irreverente, ocupava espaços. Era um dândi. Quando resolveu ir para São Paulo, passou pela corte no Rio de Janeiro para conhecer José de Alencar. Este escreveu uma carta recomendando-o a Machado de Assis. Assim, Castro Alves abre caminhos, cria situações, conta o cineasta.
Em São Paulo, Castro Alves, conheceu e viveu com a atriz Eugênia Câmara, dez anos mais velha do que ele. Em uma caçada, levou um tiro no pé. Por causa da tuberculose, não podia cheirar clorofórmio. Seu pé foi amputado a seco. Mas ele ironizava: Agora tenho menos matéria que o resto da Humanidade. O poeta volta para a Bahia, sua terra natal, para morrer.
Dentro dessa linha, documental, Sílvio Tendler está trabalhando no filme Oswaldo Cruz. Acho importante recolocar esses personagens em evidência, buscar na História exemplos que nos dêem esperança, diz. O próximo filme também está em fase de pesquisa. Vai ser Utopia e Barbárie, sobre os anos 70, uma viagem aos porões da ditadura.ReproduçãoSílvio Tendler (abaixo) filmou a vida de Castro Alves: fita destaca o lado vanguardista do poeta românticoElisa Marilia Carneiro





