São Paulo, 31 (AE) - Uma das principais estréias do cinema brasileiro no ano 2000 ocorre justamente amanhã (1): Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme, de Cao Hamburger, promete divertir as crianças sem aborrecer os adultos. Fórmula ideal (e dificilmente alcançada) pelos filmes infantis. De boa qualidade, bem lançado como está sendo, e com um pouco de sorte, Castelo pode, a partir de amanhã, dar início a uma boa arrancada para o cinema nacional neste último ano do milênio.
Esse bom começo seria o primeiro passo para que se alcance o objetivo do Ministério da Cultura para este ano: atingir 20% dos ingressos vendidos no País. Meta ambiciosa, quando se leva em conta os números dos anos anteriores: 5,15% em 1998 e cerca de 8,6% em 1999. No caso, os números não mentem. O cinema brasileiro tem avançado, ano a ano, e filmes não faltam para 2000.
O problema é outro. Alguns poucos títulos, de apelo popular porque estrelados por gente da TV, concentram grande parte da bilheteria. Para se ter idéia: Simão, o Fantasma Trapalhão, com Renato Aragão, levou, sozinho, 1,6 milhões de pessoas ao cinema; Zoando na TV, com a apresentadora Angélica, 900 mil, e Orfeu, de Cacá Diegues, 980 mil.
Os outros todos ficam abaixo de 200 mil espectadores, como Mauá, o Imperador e o Rei, de Sérgio Rezende, que, lançado em grande escala, fez 180 mil pagantes. Se no aspecto quantitativo a análise recomenda uma prudência otimista, no qualitativo as expectativas são melhores. Ocorrem, neste ano, estréias importantes, como Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, Memórias Póstumas, de André Klotzel, Amélia, de Ana Carolina, Estorvo, de Ruy Guerra, e Através da Janela, de Tata Amaral. Eles estão prontos ou em estágio avançado de finalização. Ninguém ainda os viu, com exceção das respectivas equipes técnicas. Mas pode-se apostar neles, ainda que toda aposta comporte risco de perda e decepção.
Promessas - Lavoura Arcaica tem sido cuidadosamente produzido por Carvalho para que seja uma adaptação à altura da obra-prima de Raduan Nassar, que refaz, à brasileira, a parábola do filho pródigo. Ruy Guerra ensaia uma versão radical do romance de Chico Buarque, reduzindo ao mínimo os diálogos e jogando todas as suas fichas na inventividade visual.
Depois de uma longa entressafra, a diretora Ana Carolina volta com Amélia, relato ficcional da passagem da lendária atriz Sarah Bernhardt pelo País. Klotzel arrisca-se na recriação do romance de Machado de Assis, já adaptado anteriormente por Júlio Bressane. E Tata Amaral, em seu segundo longa-metragem, procura repetir o sucesso de crítica do primeiro, Um Céu de Estrelas. Mais uma vez ela trabalha no universo fechado de personagens da classe média baixa paulistana.
Deve-se também prestar atenção nas "superproduções" brasileiras: Villa-Lobos, de Zelito Vianna, Chatô, de Guilherme Fontes, Xangô de Baker Street, de Miguel Farias Jr., e Bossa Nova, de Bruno Barreto. Filmes caros, feitos para o grande público, mas que podem conciliar bilheteria com qualidade. A conferir.
Há ainda outros filmes, em diferentes estágios de produção, que vão disputar o estreito mercado de exibição do ano: Gêmeas e Eu, Tu, Eles, ambos de Andrusha Waddington; Cronicamente Inviável, de Sérgio Bianchi, Amores Possíveis, de Sandra Werneck, História do Grilo Feliz, desenho animado de Valbercy Ribas, Um Certo Dorival Caymmi, de Aluísio Didier, Hans Staden, de Luiz Alberto Pereira, Milagre em Juazeiro, de Wolney Oliveira, Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro, de Sylvio Back, Condenados à Liberdade, de Emiliano Ribeiro, O Filme da TV, de Roberto Moreira, Eu não Conhecia Tururu, de Florinda Bolkan, A Terceira Morte de Joaquim Bolívar, de Flávio Cândido, Brava Gente Brasileira, de Lúcia Murat, Sobras em Obras, de Michel Favre.
O cinema brasileiro pode chegar ao fim do milênio com cerca de 30 títulos lançados no circuito comercial. É uma perspectiva positiva. Mas não dá, antes da colheita, para afirmar se a safra será histórica. Isso só os filmes dirão.

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