Casos, 'causos' e causas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de maio de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Caso 1 - Faltando poucas horas para a abertura da exposição de arte, um operário esquece o carrinho de pedreiro com materiais dentro da sala onde aconteceria o evento, levando algumas pessoas a acreditarem que se tratava de uma obra artística.
Caso 2 - Uma parede foi finamente trabalhada, exigindo para sua confecção vários estudos de materiais e cores para que se tornasse uma bela realização. Seu autor, depois de finalizar o serviço, chegou a colocar sua assinatura na obra, que ficaria fechada para sempre, do lado de dentro de uma construção, sem que fosse vista por ninguém.
Caso 3 - Uma tribo africana, os iorubas, fazem linhas em seus rostos, formando profundas cicatrizes nas faces, indicando não só sua linhagem e o status dos que possuem a marca, mas mostrando também a própria marca de sua civilização (em ioruba, ilàjú, que quer dizer, rosto com marcas de linhas), feita de caminhos abertos pelos humanos, que deixam marcas na floresta, que colocam ordem no ciclo da natureza, que dominam o uso da terra.
Diante desses três casos acima, é possível tirar alguma conclusão de semelhança? Quando é que algo é ou não é arte? Quem é que legitima o produto artístico, o fator estético?
Tais questões exigem um posicionamento claro do que se pensa sobre arte, de modo a não delegar o ato da criação artística a gênios sensíveis e excêntricos, que podem ter seu trabalho apreciado apenas por uma casta de eleitos capazes de entender aquela tinta, aquela cor, aquela mancha, aquele borrão jogado sobre o quadro. Mas, ao mesmo tempo, perder a ingenuidade de achar que a arte deve comunicar algo que seja do entendimento de todo mundo. Nem o acesso à educação básica é universal, quem dirá os códigos que desvendam uma obra de arte. Tem mais, é inconcebível que se ensine química, física, matemática e português e não se ensine a experiência da percepção visual na escola. Vivemos em plena era do domínio da imagem e saímos analfabetos dos códigos visuais, sem saber, ao menos, o que é uma perspectiva.
Outro grande problema para o entendimento e o desenvolvimento da arte, tem sido a falta de políticas públicas e do investimento - que é desviado de seus fins - para o setor. Tudo sempre girando em torno das mesmas instituições e dos mesmos nomes, que decidem como, onde e em quem aplicar os recursos. A criação de salões e concursos só tem ajudado a manter este tipo de situação, legitimando as instituições, os artistas e todo o circuito já legitimados, enquanto o muro de exclusão se materializa à grande maioria, que são os preteridos e que acabam sustentando este tipo de prática vigente, ao enviarem seus portifólios e projetos para tais fins, na tentativa de conseguirem realizar seus trabalhos.
Bem, a existência da arte depende do contexto em que é gerada, esta é a verdade. É preciso criar alternativas, resistir ao saque cultural. Só assim a gente pode entender como arte ou não um carrinho de pedreiro, esquecido durante a montagem de uma exposição, independente ser seu autor um operário relapso ou um gênio das artes. Assim como nas marcas profundas de uma civilização gravadas sobre a carne de um indivíduo pertencente a uma nação, nos confins da África.
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