CASO RARO Revista de poesia recebe uma doação milionária
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de novembro de 2002
Moacir Amâncio<br> Agência Estado 
A notícia teve impacto óbvio e mereceu editorial do ''New York Times'' na semana passada: uma senhora milionária, herdeira de indústria do setor farmacêutico, mal de saúde e aos 87 anos, resolveu doar US$ 100 milhões não para seu gato, o que a esta altura já deixou de ser notícia por ser rotina, tampouco para uma instituição de caridade, outra rotina. A tal senhora, chamada Ruth Lilly, fez o seguinte: destinou a dinheirama a uma revista de... poesia chamada ''Poetry''.
A tradicional publicação tem 90 anos e pelas suas páginas já passaram, desde seu lançamento em 1912, nomes como Yeats, Eliot, Sanduburg, Stevens e Alice Fulton. Billy Collins, oportunista, sugeriu que aumentar o pagamento de US$ 2 por verso para US$ 2 mil seria uma sugestão de poeta. Claro que é brincadeira, mas aponta para a discussão antiga sobre a liberdade artística um tanto marginal garantida pela poesia.
Para uns, trata-se de uma falsa questão, porque uma pergunta permanece: em que a doação poderá afetar a poesia norte-americana? Lisel Muller, que ganhou o Pulitzer em 1997, pela sua poesia, disse, de acordo com reportagem distribuída pela agência de notícias do jornal: ''Poesia é sempre uma arte de minoria, como música de câmara é música de minoria, e eu não acho que isso vai afetar o público leitor.'' E John Ashbery, um dos melhores poetas vivos nos Estados Unidos, concorda, pois também não acha que ''todo aquele dinheiro vai transformar os Estados Unidos num país de apaixonados leitores de poesia''.
O que é mais curioso ainda e permanecerá como um desafio para a posteridade: a doadora nunca teve seus versos publicados em ''Poetry''. Algumas pessoas sabem o que é o ego de alguns poetas, pretensos ou não: você pode perder um amigo (?) se disser apenas que o poema dele é muito bom e não simplesmente genial. Ashbery observou com a precisão de quem pertence ao ramo: ''Que ela tenha feito isso depois de ter a própria poesia rejeitada é, quase, o que há de mais interessante nisso.''


