Dirigido por Antonio Carlos Ferreira e Cesar Pillati, ‘‘Um Conto de Natal’’ tem 11 minutos de duração e deve chegar ao público até o final de novembro
A cidade de Cascavel tornou-se referência nacional como pólo cinematográfico. A criação de um curta-metragem, produzido especialmente para CD-Rom, certamente estará quebrando um ineditismo mundial – vem aí ‘‘Um Conto de Natal’’.
Dirigido por Antonio Carlos Ferreira e Cesar Pillati (este último também autor do roteiro), o filme tem 11 minutos de duração e chegará ao público, no máximo, até o final de novembro. De acordo com o projeto empresas interessadas irão adquirir lotes do produto para doá-los a entidades assistenciais que se encarregarão de vendê-los para levantar recursos.
‘‘Com certeza este é o primeiro trabalho feito exclusivamente para esse formato. O filme só vai ser visto em CD-Rom’’, explica. Todo o processo multimídia foi feito pelo designer Heber Lobo, que o diretor qualifica de ‘‘um cara genial’’. Foi ele o responsável por toda parte da criação do multimídia.
Estrelado por Helio Zachi e Francielli Paris, ‘‘Um Conto de Natal’’ narra o dia-a-dia sufocante de um empresário workaholic. A vida para ele se resume aos negócios e, às vésperas do Natal, ele encontra tempo de viajar a uma cidade pequena para fechar mais um contrato. O coração não aguenta e ele sofre um infarto.
Poderia ser o fim da linha, mas apesar da gravidade da situação, a vida lhe mostra outros caminhos. A aparição de uma mulher nos diversos lugares por onde transita remete o espectador a leituras variadas. Seria essa um anjo? Ou a própria consciência rompendo os estreitos parâmetros em busca de liberdade? ‘‘Ele acaba descobrindo que a vida vai muito além das maquinações dos negócios’’, comenta Pillati.
‘‘Um Conto de Natal’’ traz embutida ‘‘uma grande provocação’’. ‘‘É um filme que tem que ser visto com olhos de quem quer ver’’, prega o diretor. Ele começa com a locução de um poema de Natal – ‘‘Coração de Quinquilharias’’ – de autoria do jornalista Zeca Corrêa Leite . O texto serve para reforçar a mensagem que está implícita na obra.
Cesar Pillati observa que há uma ‘‘simbiose entre o poema e o filme. Um preenche o outro, e eu não ousaria mostrá-los separados, um sem o outro’’. A inclusão do texto na abertura do filme tem a finalidade dar ao espectador quase que uma ‘‘anestesia’’, como se fosse uma preparação espiritual.
O professor Moacir Gadotti, da USP, assistiu ao filme em Faxinal do Céu há duas semanas, na única apresentação pública realizada até agora, e escreveu que o Natal representa aos brasileiros ‘‘a busca do sentido da vida. O que puder ser feito, em qualquer linguagem, para promover uma cultura da paz é sempre válido’’. ‘‘O texto do dr. Gadotti acaba sinalizando isso: tudo que puder ser feito para a cultura da paz, é válido’’, resume o cineasta.
O filme nasceu do imponderável. No dia 22 de dezembro de 1999, Cesar Pillati levou a família para um passeio no ônibus do Papai Noel. Junto das duas filhas e da mulher grávida de seis meses, emocionou-se com as músicas natalinas, o clima reinante ali dentro, as casas enfeitadas lá fora. ‘‘Comecei a chorar’’, ele conta.
Nessa noite não conseguiu dormir. Começou então a escrever um roteiro e quando o dia amanheceu estava pronto. ‘‘Aí saí atrás do filme. Conversei com o Helio Zachi, que é um ator do Rio de Janeiro, acertamos o trabalho e no dia 26 começamos a rodar o filme, porque tínhamos que aproveitar as luzes de Natal’’.
Pillati imaginava que a produção do curta-metragem iria desdobrar-se no transcorrer do ano seguinte. Somente as cenas natalinas é que seriam feitas na época para aproveitar o cenário natural das festas. Na prática nada disso aconteceu.
Helio Zachi propôs que o filme fosse rodado do começo ao fim, em sessões intensivas, porque ele vivia mudando a aparência. Acabara de perder 18 quilos, que ganhara especialmente para compor o personagem de outra fita, alterava a cor do cabelo, não se detinha numa única imagem. O ideal era dar início, meio e fim ao trabalho para evitar surpresas. ‘‘Ele achou que era melhor eu me virar, fazer naquela hora senão a coisa poderia não acontecer’’.
A atriz Agnes Xavier, mulher de Zachi, prontificou-se a defender um dos papéis. Foi um momento de decisão e angústia: tudo ou nada. Optou pela primeira condição e viveu duas semanas de absoluta adrenalina. Em 15 dias o filme estava pronto.
Foi de enorme valia a presença dos técnicos, figurantes e amigos em geral. ‘‘Tiveram cenas dentro do ônibus que começavam às seis da tarde e iam até às sete e meia da manhã do dia seguinte. Quem estava ali não podia sair, para não comprometer a imagem’’, lembra o cineasta. ‘‘Freiras, velhos, crianças: todos deram uma contribuição muito grande’’.
Além do trabalho extenuante, havia também a imprevisibilidade. Depois de negociar com a Unimed o envio de uma unidade móvel da UTI – uma aeronave com pessoal qualificado –, que consumiu horas de tensão e incerteza, Pillati soube que tinha quatro horas de solo para rodar as cenas. Pois bem, virou o tempo e caiu um tremendo aguaceiro.
‘‘Isso me assustou demais, atrasou os planos. Eu só tinha uma chance de pegar o avião subindo; não podia errar. Mas o rapaz que fez a câmara (Sebastião Porto) é um grande profissional e acertou na mosca. Enfim, a coisa tinha que ser, não havia outro jeito: fizemos uma única tomada. Perfeita’’.
Os acertos não foram unicamente técnicos e artísticos, com um elenco convincente. O lado financeiro do projeto contou com a ajuda decisiva da Unimed; e teve ainda o reforço da EMI que cedeu a música ‘‘Sagrado coração’’, do Renato Russo, para as imagens aéreas de São Paulo, na abertura do filme, de Stephan Bubna que deu todo suporte de produção; de Talício Sirino, também na produção, do compositor Xenon Pinheiro, que assina a trilha sonora.
Se fosse colocar na ponta do lápis no mínimo seriam necessários R$ 30 mil, quantia impossível de ser levantada em poucos dias. ‘‘Todo mundo se cotizou, renunciou ao dinheiro para que esse trabalho surgisse, principalmente porque ele tem um fim assistencial’’, diz. Em Cascavel a renda irá para o Lar Esperança.

Coração de Quinquilharias