O casamento entre muçulmanos é um dogma bem explorado na telenovela ''O Clone'', da Rede Globo. A história das personagens Jade (interpretada pela atriz Giovana Antoneli) e Latifah (Letícia Sabatella) está cercada de abordagens relacionadas à obrigação de aceitar a indicação de um marido, a punição para o adultério, a virgindade e o casamento com fiéis de outras crenças.
A coordenadora educacional Leila Almad Darouiche explica que ''é normal'' aceitar o casamento como ato de uma tradição, quando o homem recomendado tem bom caráter e boas referências. ''Mas a mulher pode recusar a aliança'', afirma, frisando que as atitudes da dupla global estão ''erradas''. A vendedora Cabura Issa lembra que um primo tentou obrigá-la à união. ''Porém ''meu pai não quis e deixou que eu escolhesse. Depois, permitiu o matrimônio com o homem que eu escolhi'', conta.
A islâmica mais jovem entrevistada pela Folha, a digitadora Umaima Birani, 21 anos, demonstra posições moderadas sobre a questão feminina, mas apimenta a discussão quando o assunto é o casamento inter-religiões proibido para as mulheres. ''Muitos homens casam com brasileiras cristãs, pensando ser normal. Muitos deles já converteram as mulheres, mas muitos assim não fizeram. Isso é errado. Para nós, é o maior pecado casar com um homem de outra religião'', argumenta.
Além de sua formação muçulmana, Cabura revelou ter sido batizada em igreja cristã. Esse fato talvez possa explicar algumas de suas opiniões ''ocidentais''. Segundo ela, a mulher divorciada tem apoio da família, podendo se casar de novo. ''Não é porque ela divorciou que ela terá menos valor de quem é solteira ou casada. Amanhã ou depois, aparece um bom partido para ela''.
A declaração é sucedida por uma provocação, com base num ponto delicado: o adultério. O livro sagrado determina 100 açoites como punição. Diz ainda que o castigo deve ser presenciado por um grupo de muçulmanos. ''Isso existe no Alcorão, mas na prática nunca vi acontecer, tampouco tomei conhecimento de uma punição. As coisas mudaram. Mas quando existe a traição, é mais fácil acontecer a separação'', sustenta Cabura.
O marido de Cabura, comerciante de Sobhi Mohamad Issa, 65 anos, entra na conversa. ''Somente Deus pode julgar. No Alcorão, o homem casado também não pode trair''. A mesma pergunta foi reproduzida para Leila Almad Darouiche, Rabha Melhem e Umaima Birani. Elas afirmaram ter conhecimento da punição, porém garantem nunca ter presenciado ou escutado informações sobre acoite contra adúltera.
Outro tema é apresentado no debate e novamente Cabura apresenta opinião flexível sobre um valor considerado irrecuperável em diferentes religiões, a virgindade. Dentro do Islã, o homem tem até dois dias para devolver a esposa à família dela, caso assine contrato de casamento com uma mulher que se declare virgem, mas futuramente ele constate que a companheira manteve relação sexual antes da união.
Quanto à virgindade, o Alcorão, como a Bíblia, prega a valorização das moças puras. A mulher muçulmana tem o direito e o dever de se guardar, porque a virgindade é muito importante. O marido pode devolver a mulher para a família.... Hoje em dia a juventude está muito liberal, mas quem vai querer casar com uma mulher que passou por 500 pessoas? Pode até namorar, mas na hora de casar, vai querer uma de respeito, argumenta Cabura.
Indagada se o marido deve dar prazer à mulher e a mulher ao marido, Cabura responde que ''o sexo sem prazer não tem graça nenhuma. Como o homem tem o direito de sentir prazer, a mulher também. Quando o sexo é feito por amor, os filhos vêm mais bonitos (risos). Sexo somente para procriar não tem graça''.

(A.P.)

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