Casal multimídia
Wilmar Klein
De Curitiba
Especial para a Folha2
Para começo de conversa (e para quem não sabe), Tetine é uma dupla formada em São Paulo por Bruno Verner/Eliete Mejorado - ele, ex-integrante da cena punk de Minas Gerais; ela, gente de teatro e mulher de Bruno. O que eles fazem é música eletrônica. E também vídeos e performances, entre outras atividades artísticas - todas elas com pouco ou nenhum retorno financeiro. (Bem feito! Que idéia é essa de se recusar a fazer música burra, como a maioria dos músicos brasileiros faz - incluindo os do ramo eletrônico -, e, ainda por cima, inventar de ser multimídia ?) Pois bem... fonograficamente, Tetine surgiu em 96, com o CD Alexanders Grave - um disco de vocação experimental, recheado de poesia alheia (Shakespeare, Fernando Pessoa... se não me engano, também Strindberg, Camões...) e própria (de Eliete). Dois anos depois, deu um susto com o álbum Creme, música de encomenda para o espetáculo de dança homônimo: como compositores, Bruno e Eliete haviam melhorado bastante... mas no rumo da música pop. Ainda que não fosse o pop descartável e estivesse de acordo com o espírito do espetáculo, dava margem à pergunta: estaria o casal ensaiando uma rendição à música fácil? Não obstante a banalidade do título possa sugerir o contrário, Música de Amor, o terceiro, recém-lançado CD, mostra que esse risco, pelo menos por enquanto, não existe. Não chega a ser vanguarda (os climas e as muitas passagens faladas que permeiam o disco têm já uma tradição de mais de duas décadas), nem é inacessível, mas não é música óbvia, nem mesmo quando seu objeto, como acontece numa das faixas, é uma releitura de uma baba como Hello, de Lionel Richie. (Em tempo: como Música de Amor é um produto da gravadora caseira do próprio Tetine, a High School Records, vai ser meio difícil encontrar o CD nas lojas. Assim, o jeito é fazer o pedido diretamente à dupla pelo telefone 0+XX+11/826-8219.)
Horrorosamente bacana
Inédita no Brasil, a banda People Like Us, capitaneada por Vicki Bennett, já foi descrita pelo zine eletrônico britânico Urban Sounds como uma mistura de Negativeland com Stereolab e Nurse With Wound - o que não ajuda muito, considerando que do Negativeland e do genial NWW nunca saiu nada por aqui e da extensa discografia do Stereolab saiu muito pouco. Vale dizer, portanto, que o People Like Us é uma banda para amar ou odiar, e isso depende do senso de humor do freguês, pois o que ela faz é uma colagem (muito coesa, diga-se de passagem) de uma estética deliberadamente Kitsch. Easy listening vagabunda, jingles, programas de rádio popularescos, diálogos de filmes, música de Oktoberfest, temas de game shows da tevê... Puro lixo - e um luxo depois de processado pelo P.L.U. Inevitável que essa apropriação do que a cultura de massa tem de mais descartável acabasse despertando a atenção de outros músicos. Assim, depois de a banda ter lançado no ano passado o álbum People Like Us Hate People Like You (título bacana, não?), sai agora um álbum de remixes, People Like Us Hate People Like Us. Trata-se de um CD duplo e, ao contrário da quase totalidade dos discos de remixes, é ótimo. É bem verdade que o elenco de músicos - em sua maioria, caracterizado pelo experimentalismo de seus trabalhos próprios - faz toda a diferença: Coil, Mika Vainio (da dupla robótico-minimalista Panasonic), Negativeland, Christophe Heeman, Bruce Gilbert (ex-guitarrista da legendária banda Wire, ex-integrante do Dome e do Duet Emmo), Venoz (TKS), Felix Kubin, Death in June, Boyd Rice, Sons of Silence, Stock Hausen & Walkman, entre outros ilustres (e criativos) desconhecidos (aqui no país mais musical do mundo... pois sim). (Observação: a Soleilmoon, americana, lançou uma versão reduzida do álbum - apenas um CD -, a Staalplat, européia, tem o CD duplo. Como não achei os endereços da Staaplat e da Soleilmoon - preciso urgentemente organizar as minhas gavetas -, sugiro o site da revista The Wire - www.dfuse.com/the-wire -, que traz, entre seus links, no item gravadoras e distribuidoras, os endereços de ambas.)
Estréia
...na programação do canal pago Telecine 1, no próximo sábado, às nove da noite, Alien - A Ressurreição, o quarto (e, na minha opinião, o melhor) filme da série, dirigido por Jea-Pierre Jeunet. Jeunet conseguiu a proeza de - numa produção (cara) de sci-fi nos moldes hollywoodianos e, de quebra, contando com um roteiro com um ponto de partida bem pouco plausível (afinal, a tenente Ripley morreu no terceiro filme da série e, para ressuscitá-la foi preciso apelar para um clone) - preservar o estilo bizarro de suas realizações anteriores, na França, em parceria com Marc Caro: os ótimos Delicatessen(idem, 1990) e Ladrão de Sonhos (La Cité des Enfants Perdu, 1994). (Curiosidade: você sabia que o cineasta inicialmente escalado para dirigir Alien - A Ressurreição foi Danny Boyle, o mesmo de Cova Rasa e Trainspotting, que acabou abandonado o projeto? Pena que Boyle, em Hollywood, não se deu tão bem quando Jeunet...)
E-mail: [email protected]





