Apesar de Londrina sediar o mais antigo festival de teatro da América Latina (com 34 anos) e de exportar para o eixo Rio-São Paulo nomes de referência para o setor, o desconhecimento sobre o que é teatro ainda é imenso. Arte acessível a poucos, o teatro precisa reavivar eternamente a conexão com o público. Há uma platéia invisível e numerosa que nunca assistiu a uma peça e desconhece completamente o poder da ‘‘caixa-preta’’. Aproveitando o burburinho do Filo 2001, a convite da Folha 2, o casal Marcelo Luciano de Oliveira e Marta Zacarias Gomes, ambos de 26 anos, foram pela primeira vez assistir a um espetáculo.
Os dois estudam no Colégio Estadual Albino Feijó Sanches (Zona Sul), e retomaram os estudos após anos longe dos bancos escolares. Marcelo e Marta residem no Jardim União da Vitória II, bairro que concentra a melhor organização comunitária da cidade e carregou durante anos o estigma de ser a localidade mais violenta de Londrina. A reportagem da Folha 2 encontrou o casal na aula de informática, plugados com o futuro, mas desconectados das informações sobre a ancestral forma de comunicação: o teatro. Na escola, ambos se adaptaram melhor à disciplina de Matemática. Para ganhar a vida, Marcelo Oliveira trabalha como pintor.
O espetáculo escolhido, ‘‘Cobertores’’, da Cia. Étnica, foi apresentado no Teatro Núcleo I (na verdade, um barracão adaptado). Marta explica que nesse retorno às aulas, ela apresentou uma esquete em que personificou a ‘‘miséria’’. Os colegas não valorizaram a iniciativa. Na certa, por falta de referenciais sobre a arte teatral. Apesar de nunca ter colocado os pés num teatro, Marta Gomes participou da edição do Filo 2000, nos projetos de Maio, na Oficina de Moda. Sua participação ficou restrita ao fuxico – técnica artesanal de reutilização de retalhos para transformá-los em pequenas flores de pano. O projeto deixou de ter a assessoria do Filo neste ano.
‘‘Teatro para mim são pessoas conversando, relatando um fato’’, define a artesã, momentos antes de assistir ao espetáculo. Já Marcelo é mais lacônico: ‘‘Teatro é a representação sobre um assunto’’. Sobre o que eles podem encontrar no edifício onde funciona o Núcleo I não fazem a menor idéia. ‘‘Estou indo para um mundo completamente diferente do meu’’, arrisca Marta. Na fila, às 23 horas, do dia 25 de maio, o casal lê atentamente o programa do espetáculo ‘‘Cobertores’’. ‘‘Eles são moradores de rua?’’, questiona Marta espantada, prestes a se tornar público.
As portas do teatro se abrem. Marcelo e Marta tomam um lugar na platéia. No black-out tem início a conexão com os gregos na antiguidade, com os sábios chineses, com os bufões da Idade Média. Na escuridão, a mágica tem início com a religação com a commedia dell’ arte e a genética teatral do príncipe dos poetas. Na ‘‘caixa-preta’’ de ilusões, os efeitos especiais das luzes, a impactante presença dos atores cariocas e as coreografias fizeram que com os dois convidados ficassem imóveis.
‘‘Cobertores’’ conta uma noite na vida de meninos moaradores das ruas de uma cidade, misturando o teatro gestual e a música. No momento em que a primeira coreografia funk surge, Marta sorri. Na batida do funk, a estrutura do espetáculo se mostrou contundente, com a sonoplastia precisa, a iluminação acolhedora e a direção segura. Marta e Marcelo nem piscavam, ao entrar em contato com garotos vocacionados para a arte. Nesse espetáculo, a Cia. Étnica conseguiu um resultado superlativo com muito pouco. Nos rostos dos garotos cariocas os traços de sobreviventes. Ao final, a promessa redentora que o sol há de brilhar mais uma vez, na voz de Zizi Possi, cantando ‘‘Juízo Final’’. Marta e Marcelo, em pé, aplaudem pela primeira vez um espetáculo teatral.
‘‘Eu imaginava uma coisa numa cena e eles apareciam dançando diferente. Aparecia uma imagem e eu queria ver todas ao mesmo tempo e não dava. Foi tão diferente’’, disse Marta Oliveira. Ela conheceu pessoalmente a diretora Carmem Luz, que explicou que a proposta da Cia. Étnica é apenas artística. Para a estreante na platéia, uma das cenas que mais chamaram a atenção foi a do pastor evangélico perseguido por garotos embaixo de cobertores coloridos.
Marcelo não quis se pronunciar sobre sua leitura a respeito da peça. ‘‘Achei interessante’’. ‘‘Fiquei emocionada com a presença da menininha em cena. Como uma criança daquele tamanho pode ser uma artista’’, disse Marta, no caminho de volta ao União da Vitória. Era quase uma hora da manhã. Ao que pareceu, o espetáculo teatral realmente causou um impacto positivo na artesã Marta Oliveira. ‘‘Teve uma hora que minha cabeça virou uma confusão. Era uma imagem mais bonita que a outra’’, disse.
Enquanto o automóvel que os conduziam de volta atravessava as ruas vazias do bairro, ela definiu sua trajetória ao mundo do teatro: ‘‘é diferente para a gente que vive assim, na periferia, assistir a um espetáculo de teatro’’. Nesse jogo em que a arte imita a vida e vice-versa, na Av. 10 de Dezembro, um grupo envolto em cobertores tentava se aquecer. Era uma hora da manhã e a noite prometia ser longa e fria.

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