Casais em tempo de guerra
Francelino França
De Londrina
A fauna que ocupa o território ficcional do dramaturgo londrinense Mário Bortolotto carrega um visível desencantamento com a vida. Alguns personagens se camuflam numa doutrina niilista, enquanto outros estão dispostos a qualquer embate, sem escolher as armas. Sarcasmo, inconformismo e humor cáustico estão expressos em vários textos do autor, todas com títulos instigantes (Medusa de Rayban, Vamos Sair da Chuva Quando a Bomba Cair, Será que a Gente Influencia Caetano?, Nossa Vida Não Vale um Chevrolet, entre outros). Mas não se pode resumir a obra de Bortolotto aos títulos, ela já suplantou há muito esse atrativo.
Em Felizes para Sempre, sua enésima peça (ele perdeu a conta de quantas escreveu), que estréia hoje em Londrina, dentro da programação do Cabarezinho, os cúmplices se tornam oponentes no ambiente mais revelador na vida de um casal, o quarto. Sem concessões, eles recorrem à porrada, agressividade e ofensas mútuas. O relacionamento a dois é um tema que estava cruzando os caminhos de Bortolotto há tempos. Agora, resolveu verter para o palco os dissabores da convivência entre quatro paredes, centralizando a trama no exato momento em que os casais estão armando o maior barraco.
Para um tema tão complexo e inesgotável, Bortolotto concebeu dois segmentos. O primeiro, O Rei do Amor Está Morto, já nos primeiros instantes o casal (interpretado por Márcio Américo e Christine Vianna), começa literalmente brigando.
Sweet Emily, o segundo texto que compõe Felizes para Sempre, interpretado pelo próprio Mário Bortolotto e Fernanda DUmbra, a discussão é pintada com cores niilistas. Na vida a dois, tudo é muito conflituoso, sentencia o dramaturgo. Nas duas pequenas peças, os dois casais são diametralmente opostos e ao mesmo tempo muito parecidos. O que os aproxima é o momento fio da navalha no qual estão passando. Alguém sempre sai ferido.
Mário procura fugir da visão angustiada e reprimida da discussão da vida a dois. Essa é uma versão porrada do tema, em que os personagens botam tudo pra fora. As pessoas negam, mas quem nunca armou um barraco?, questiona.
Para ambientar a esgrima verbal, o autor descartou, como sempre, qualquer subterfúgio que roubasse a cena, optando por um cenário franciscano: uma cama e um aparelho de som. Uma iluminação simples pontua a agonizante afetividade. Os próprios atores completam o mundo sonoro de Felizes Para Sempre controlando a sonoplastia com músicas envolventes, em que se destaca a voz de Nina Simone, a dama do jazz americano que não pede desculpas por ser o que é.
Radicado na capital paulistana, Mário Bortolotto está conquistando um espaço respeitável na cena teatral de maior influência no País, sendo indicado duas vezes ao Prêmio Shell. Muitos até comparam seu estilo ao de Plínio Marcos, pois afinal os dois autores deram voz às figuras que berram da geral e nunca são ouvidas. Mas ele nunca foi um referencial para mim. Mas enquanto estava escrevendo essa peça, pensava muito no Plínio. Logo depois fiquei sabendo de sua morte, diz.
Existe algo de autobiográfico em Sweet Emily e O Rei do Amor Está Morto? A resposta do autor foi afirmativa, mas em que momentos, Mário Bortolotto prefere manter o mais absoluto segredo.
Felizes para Sempre, com o grupo Cemitérios de Automóveis, texto e direção de Mário Bortolotto. Com Márcio Américo e Christine Vianna, Mário Bortolotto e Fernanda DUmbra. Hoje, às 22 horas, no Cabarezinho, na Av. Celso Garcia Cid, 1.342. Ingressos a R$ 5,00.
PROGRAMAÇÃO
Confira a programação de hoje do Cabarezinho
- Show de palhaços e balé - às 10h30
- Macarronadaria 24 horas - 11 horas
Abertura com show do Nós Caipiras
- Domingos Pellegrini conta histórias da terra vermelha. Participação especial de Apolo Theodoro e Poca Marques - 13 horas
- Abertura do bar - 18 horas
- Abertura da bilheteria - 21 horas
- Estréia do espetáculo Felizes para Sempre, de Mário Bortolotto - 22 horas
- DNA com Eduardo Batistella - 22h30
- Show com Bernardo Pellegrini e o Bando do Cão Sem Dono com todos os convidados - 23 horas





