'Casa dos Anõezinhos' faz parte da memória afetiva dos londrinenses
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sábado, 05 de julho de 2014
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local
Inaugurada em 1945, a casa de alvenaria da família Roehrig na esquina da Rua Tupi com a Avenida Higienópolis chamava a atenção por quem passava por Londrina. De estilo germânico, com jardim decorado com pequenos gnomos em gesso (figuras representantes do folclore alemão), a residência lembrava ilustrações de contos de fada e acabou ganhando o apelido de "Casa dos Anõezinhos", encantando crianças e adultos que apreciavam pelo muro baixo uma construção que destoava das poucas casas de material que existiam na cidade.
Como um gesto concreto de amor, a casa foi praticamente um presente do pioneiro Roberto Júlio Roehrig à sua esposa, Mercedes Hauer Roehrig, que após enfrentar um começo difícil em Londrina, morando em uma pequena casa de madeira, na Rua Sergipe, merecia ter a sua "casa dos sonhos", construída de forma semelhante à uma residência que ela admirava em Curitiba, cidade natal do casal.
Eles chegaram em Londrina em 1939, com a intenção de ficar apenas cinco anos para instalar uma filial de uma empresa curitibana de materiais de construção. O projeto arquitetônico da casa ficou a cargo do jovem engenheiro Rubens Meister, que mais tarde projetaria o Teatro Guaíra e o Palácio Iguaçu, em Curitiba. Além do casal, moravam na casa os quatro filhos dos pioneiros: Ruth, Leony, Milton e Júlio.
Hoje, com 77 anos, o advogado Júlio Rodolfo Roehrig lembra com saudosismo da infância feliz na residência que praticamente virou uma espécie de "ponto turístico" da cidade, principalmente na época do Natal, quando a casa ganhava uma decoração especial, cheia de pequenas luzes. "Era o meu pai que cultivava as rosas que circundavam os muros da casa e naquela época ninguém pegava da rua uma rosa sequer. Era de se admirar o respeito e honestidade das pessoas. A minha mãe também cultivava muitas orquídeas e, quando elas floriam, vinham caravanas de japoneses de Assaí e Uraí para ficar admirando durante horas as flores, era impressionante. No Natal, então, tinha gente toda hora observando a casa", recorda-se.
Sua irmã, a professora Ruth Roehrig Ávila, de 86, que possui uma réplica perfeita da casa de sua infância e vários móveis e objetos que pertenceram aos pais, também se emociona ao falar da casa que tanto representou para a família: "Tenho muitas saudades e lembro bem do poeirão que levantava a cada carro que passava pela rua. Tínhamos que deixar panos úmidos nos beirais das janelas e portas para conseguir manter a casa limpa, ainda mais que a casa era no caminho para o aeroporto da cidade, que ficava próximo onde hoje é o Patrimônio Regina", destaca. "Era comum também recebermos visitas de amigos da Alemanha e a casa vivia cheia", observa.
Em 2007, sete anos após o falecimento da matriarca, ficou insustentável economicamente manter a casa e decidiu-se demolir a residência para a construção da sede de um banco, em atividade até hoje no local. "Retiramos os móveis e o piso de caviúna, mas não era mais possível manter a casa. Tentamos várias alternativas junto ao poder público, como o tombamento cultural da casa, mas não foi possível", destaca o advogado Júlio Rodolfo Roehrig. No dia da demolição, que era feriado, ele recorda que levantou cedo para acompanhar os trabalhos, mas não conseguiu ficar até o final: "A hora em que eu vi a chaminé cair, não deu mais para continuar lá. Foi triste e melancólico", lamenta.
Para preservar a memória dos pais pioneiros e motivado pelas comemorações aos 80 anos de Londrina, ele decidiu doar ao Museu Histórico de Londrina duas pinturas a óleo feitas pelo renomado artista plástico Edgar Werner Osterroht com reproduções de imagens dos seus pais e da casa que marcou a vida da família e de tantos londrinenses. "Foi uma forma de prestar uma homenagem aos meus pais que foram pioneiros e aos londrinenses. É uma pena que não tenhamos conseguido preservar as casas de tantos pioneiros. Há sempre muitas histórias para contar a partir desses locais e ainda há muita gente viva que foi testemunha presencial de muita luta e esforço por Londrina", ressalta.