Casa da Fazenda inaugura exposição de Cícero Dias
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terça-feira, 23 de março de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 24 (AE) - A recém-inaugurada Casa da Fazenda, em São Paulo, que pretende firmar-se no circuito cultural da cidade mostrando o trabalho de importantes artistas brasileiros, conseguiu uma atração de peso para estrelar a segunda exposição de sua programação. Amanhã à noite será inaugurada uma exposição de obras de Cícero Dias, um dos grandes mestres do modernismo brasileiro.
"Não se trata de uma retrospectiva, mas de uma homenagem a um dos maiores pintores brasileiros", afirma o marchand Fábio Porchat, que responde pela curadoria do novo espaço. Essa homenagem terá dois segmentos bem distintos. A razão principal da mostra será o lançamento de 19 séries de gravuras, no total de 200 cópias, assinadas e numeradas pelo artista. A maioria desses trabalhos não é original, mas reproduz composições coloridas e românticas, pintadas em acrílico sobre tela e expostas há cerca de três anos em São Paulo. Essa figuração tardia é considerada pela crítica como um período menor da produção daquele que protagonizou alguns dos momentos mais importantes da história da arte brasileira e francesa deste século.
Elas foram impressas pelo editor Pedro Paulo Mendes da Silva, que foi à França negociar a edição pessoalmente com Cícero Dias. Depois de prontas, as gravuras retornaram à França para serem numeradas e assinadas por Dias. Os paulistanos não serão os únicos a terem à disposição as novas gravuras. Depois da exposição da Casa da Fazenda, elas serão mostradas no Rio, Nova York e Paris.
Rompendo um pouco com o caráter excessivamente comercial do evento, a Casa da Fazenda também estará realizando uma exposição de dez óleos sobre tela de sua autoria, cedidos por colecionadores privados de todo o País. Um dos destaques desse pequeno acervo é um óleo sobre tela de 1929, em que Dias retrata o jardim da casa de Gilberto Freyre em Recife. Foi nessa cidade que Dias nasceu, em 1907, e o imaginário nordestino marcou profundamente o seu trabalho. Ele começou a pintar aos 9 anos de idade e em 1929 chocou a sociedade conservadora carioca com seu painel "Eu Vi o Mundo... Ele Começava no Recife". Tanto que um trecho de três metros, onde se viam escandalosos nus frontais femininos, foi cortado da obra e desapareceu.
Em 1937, quando viajou para Paris a convite de Di Cavalcanti para escapar do clima opressivo que reinava no Brasil
Dias conhecia pouco da arte de vanguarda que era feita na Europa e nunca tinha visto o trabalho do russo Marc Chagall, a quem foi muitas vezes comparado. Na França ele conheceu os grandes mestres como Matisse e Picasso, de quem se tornou grande amigo.
Durante a 2.ª Guerra Mundial protagonizou uma interessante aventura. Foi ele quem conseguiu tirar da França o poema Liberté, de Paul Éluard, que foi jogado pelos aviões ingleses sobre a França, Bélgica e Holanda num dos mais belos atos da resistência. Nos anos seguintes à liberação, Dias descobriu o abstracionismo e tornou-se o primeiro brasileiro a pintar um quadro com formas geométricas.
Coincidentemente, há uma outra exposição na cidade que apresenta obras do artista. Uma série de litogravuras de sua autoria podem ser vistas até 30 de abril no Projeto Cultural A Casa, durante o evento "Mosaico Pernambucano ou o Dia em que Pernambuco Foi à Casa", ao lado de trabalhos de alguns de seus conterrâneos, como o escultor Francisco Brennand, o pintor José Cláudio e o fotógrafo Pedro Ribeiro.


