Berlim (Alemanha) Ao montar o espetáculo ''Casa'', em Berlim, a missão de Deborah Colker ia muito além de apresentar uma noite de dança, a primeira que a coreógrafa carioca preparava com uma companhia internacional. Esperava-se também que ela fosse capaz de salvar a própria casa da companhia de balé do Komische Oper. ''A pressão foi enorme, havia uma questão política em torno da Komische, com a qual não tinha nada a ver. O convite foi feito com essa expectativa, de fazer algo contemporâneo que tenha comunicação com o grande público'', disse.
Desde a unificação de Berlim, em 1990, a cidade viu-se com três grandes casas de ópera e, cada vez mais, orçamentos reduzidos para custeá-las. Nos últimos anos, a Secretaria de Cultura decidiu reunir os três balés em uma mesma companhia, mas a resistência foi tanta que a proposta não saiu do papel, e cada local tentou mostrar que tinha chance de sobreviver.
Assim, o Komische tenta caracterizar-se como companhia de dança contemporânea. Em 2001, a coreógrafa espanhola Blanca Li foi convidada para cumprir o papel de renovação, mas, apesar do sucesso de público, ela abandonou o posto, após duras críticas de especialistas em dança.
Foi esse o contexto em que Colker se viu ao montar ''Casa'' o espetáculo criado em 99 com sua companhia e o prólogo de 15 minutos, ''Ela'', que estrearam no último sábado na capital da Alemanha. ''Esperamos que com essa produção seja dada mais atenção para a dança na cidade'', escreveu Adolphe Binder, a diretora artística da Komische Oper, no programa do espetáculo.
Com o público que lotou o teatro, Colker saiu-se vitoriosa. Por quase dez minutos, a coreógrafa recebeu aplausos calorosos, como os que costuma receber nas estréias no Brasil. Entretanto a opinião dos especialistas foi outra. Michaela Schlagenwerth, crítica do jornal ''Berliner Zeitung'', escreveu que o trabalho de Colker ''é de fato mais show do que uma peça de dança'', enquanto Sandra Luzina, do ''Der Tagesspiegel'', publicou que ''o estilo mix, linguagem que a coreógrafa ambiciona, soa um pouco barato''.
''Adolphe ficou arrasada com as críticas, mas eu saio sentindo que a missão foi cumprida, afinal, o que é arte? Creio que introduzi esse debate. E quando uma platéia inteira gosta, os críticos deixam de ter sentido'', disse Colker. O trabalho de Colker é arte? Esse foi de fato o tema dos críticos após a estréia. Arnd Wesemann, editor da revista ''Tanz-aktuel'' achava que não. ''Ela trouxe a linguagem da MTV para o Komische, mas isso está longe de ser arte'', disse.
Já Norbert Servos, um dos mais respeitados críticos alemães, afirmou que ''Colker apresenta apenas movimentos acrobáticos ao som de música de elevador''. ''Marcel Duchamp, nas artes plásticas, e Pina Bausch, na dança, também foram incompreendidos em seus primeiros trabalhos. Acho normal que haja resistência'', afirmou Colker. Independente da discussão, a coreógrafa chega hoje ao Brasil para um ano com a agenda cheia. Apresenta-se da Rússia à Inglaterra e prepara sua nova coreografia, com estréia em 2004, em que irá aproveitar trechos de ''Ela''. Colker segue sua turnê, enquanto a companhia de dança do Komische parece aproximar-se de seu fim.

mockup