Arquivo FolhaCarybé: um argentino que adotou o Brasil e desenvolveu profunda relação com a nossa culturaO pintor Carybé, argentino naturalizado brasileiro, morreu anteontem às 22h em Salvador de insuficiência respiratória e parada cardíaca, segundo seu médico particular, Otávio Messede.
De acordo com o médico, o artista estava participando de uma reunião no terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, no Retiro (periferia de Salvador), quando sentiu-se mal. Ele era adepto do candomblé. Carybé foi levado para o hospital Roberto Santo - centro médico mais próximo do local onde se encontrava. Messede disse que Carybé já chegou morto ao hospital.
Radicado na Bahia há quase 50 anos, Carybé era ogã (espécie de conselheiro) do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. Messede, que acompanhou Carybé nos últimos nove anos, disse que o artista plástico sofria de problemas respiratórios. ‘‘Ele estava muito debilitado e tinha enorme dificuldades para respirar’’.
O enterro do artista plástico aconteceu ontem, no cemitério
Jardim da Saudade, em Salvador. Segundo informações do diretores da Associação de Cultos Afros da Bahia, os terreiros de candomblé de Salvador ficarão de luto por uma semana.
ReproduçãoCandomblé: óleo sobre tela de Carybé
Hector Júlio Páride Bernabó, Carybé, nasceu em 9 de fevereiro de 1911, em Lanús, subúrbio de Buenos Aires, capital da Argentina. Fez os estudos primários em Gênova e Roma, na Itália, e os secundários no Rio, onde esteve pela primeira vez em 1919.
Após viajar durante anos pela América do Sul - Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru -, produzindo e expondo, fixou-se na Bahia a partir de 1950, ano em que participou pela primeira vez do Salão Bahiano de Belas Artes. Tornou-se depois brasileiro naturalizado.
Durante os quase cinquenta anos em que viveu na Bahia, Carybé desenvolveu uma profunda relação com a cultura e os artistas do Estado. As manifestações culturais locais - como o candomblé, a capoeira e as baianas - passaram a marcar sua obra.
Como artista plástico, Carybé experimentou ao longo de sua vida uma grande variação em suas formas de trabalho. Escrevendo sobre sua obra em 1966, ele registrava: ‘‘Tenho quarenta anos de ofício, durante os quais estudei e trabalhei em quase todas as técnicas conhecidas, da encáustica a fogo à cerâmica, do óleo às resinas sintéticas...’’.
IlustradorO artista ilustrou obras de importantes escritores, como Jorge Amado, Rubem Braga e Gabriel Garcia Marquez. Realizou também roteiros gráficos, direção artística, cenografia e figurinos para teatro e cinema. O melhor amigo de Carybé, o escritor Jorge Amado, não pôde ser informado imediatamente sobre a morte do artista. Segundo a mulher de Amado, Zélia Gattai, Jorge só poderia saber da perda do amigo na presença do cardiologista Adelson Andrade. ‘‘Carybé era nosso melhor amigo. Uma notícia repentina sobre sua morte certamente abalaria muito a Jorge’’.
De acordo com Zélia Gattai, Carybé estava preparando uma série de 18 telas. A escritora disse que ele estava muito feliz por poder terminar as obras. ‘‘O médico de Carybé o havia proibido de subir escadas, o que o impossibilitava de ir até seu ateliê no segundo andar da casa’’. Os Amados estiveram reunidos com o artista plástico no último sábado para comemorar o dia de Cosme e Damião. Carybé havia feito uma pintura com guache com as figuras de Cosme e Damião com o rosto de Jorge Amado e dele próprio. ‘‘Ele disse que era Jorge Cosme e Carybé Damião’’, disse Zélia Gattai.
A pintura foi utilizada no convite para o almoço em homenagem aos santos, oferecido por Amado e Gattai. A pintura também foi colocada em camisetas. Segundo Gattai, Carybé vinha reclamando de falta de ar havia alguns meses. ‘‘Nas últimas semanas, ele usava sempre com uma bombinha para recuperar o fôlego’’, disse ela. Zélia Gattai afirmou que Carybé era ‘‘como um irmão’’ para Jorge Amado.
‘‘Ele era a Bahia. Não sei mais como vai ficar essa terra sem ele’’.
Segundo Gattai, a grande motivação para que Carybé mudasse para a Bahia foi a leitura do romance ‘‘Jubiabᒒ, de Jorge Amado. ‘‘Ele veio conferir se as maravilhas que Jorge falava da Bahia eram verdadeiras e acabou ficando’’, disse.

mockup