Angoulême, França, 01 (AE) - Embora tenha confirmado em Angoulême sua fama de João Gilberto dos comics, o esquisito que todos odeiam amar, o cartunista Robert Crumb foi certamente a figura central do festival. Não só porque deu "cano" na noite de gala da mostra, mas porque o material editorial e fonográfico lançado aqui projeta definitivamente sua figura como a imagem completa de um artista. Discos, livros, biografias, novas aventuras de "Mr. Natural" e toda a sua mitologia vende como água.
"Talvez os Estados Unidos sejam um lugar de solidão e as pessoas não se dêem conta disso", diz Crumb, sem muita convicção teórica. "Os americanos apenas sentem que vivem numa espécie de vácuo, mas não sabem por quê", diz um dos mais famosos americanos auto-exilados de seu país por absoluta incompatibilidade de gênios. "Eu tinha apenas 20 anos quando a fama chegou para mim e me obriguei a ser muito consciente, porque me tomaram como uma espécie de porta-voz da juventude", afirma Crumb. Ele crê que sua "politização" - os embates com as feministas, com a hipocrisia e a política - se deu por uma contingência. "Ao mesmo tempo, a natureza psicótica, a coisa sexual do meu trabalho, se rebelava contra a necessidade de ser politicamente correto", afirma o cartunista, atualmente com 56 anos.
Mas Crumb não é absolutamente um desses artistas primitivos, reféns de sua intuição. Ele demonstra saber exatamente por que faz e o que faz com seu trabalho. "Quando a gente chega a uma certa idade, passa a ver a vida pregressa como uma saga, dá proporções épicas à própria vida", diz ele. "Estou interessado em pintar esse grande quadro da vida, no que você aprendeu com ela e no que deixou de aprender". Crumbmania - Um dos grandes objetos de culto da crumbmania que assola a França - entre todos os lançamentos - é o disco "Thats I Call Sweet Music", que contém gravações selecionadas pelo cartunista de sua coleção de discos de 78 rotações. São big bands dos anos 20, uma coleção preciosista que ele começou a montar quando tinha apenas 15 anos. "Eu era um garoto esquisito
com o passo fora da marcha do meu tempo", comenta. "Eu gostava de coisas velhas, me vestia com um fraque igual ao de Abraham Lincoln e amava aquela música de fundo dos anos 30, que animavam comédias como O Gordo e o Magro", lembra.
Robert Crumb nasceu na Filadélfia em agosto de 1943 e teve quatro irmãos: Sandra, Carol, Maxon e o genial Charles, que "roubou" a cena do irmão no premiado documentário biográfico "Crumb", de Terry Zwigoff. Charles matou-se logo após o filme. Crumb casou-se em 1990 com Aline Kominsky, com quem se mudou para a França logo depois. Seu relacionamento é tema de diversos trabalhos do cartunista, como o recente "A Day in Our Beautiful Life", no qual narra os prazeres e as agruras de viver na França, terra que adora.