Cartola revisitado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de setembro de 2016
Julio Maria<br>Agência Estado 
Sem nenhum "preste atenção" que o alertasse, Cartola viu os sonhos triturados pelo moinho em que o mundo se transformou a partir da juventude. A mãe se foi e a noite chegou trazendo todos os anjos e os demônios que brincariam de gangorra até o fim de sua vida, em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos de idade, consumido por um câncer. Apenas seis anos antes, já sendo Cartola, ele havia lançado seu primeiro disco - a grande redenção da história ao homem que submergiu por anos a sensibilidade minada nas veias para viver como porteiro, contínuo, pedreiro, lavador de carros, vigia de edifício e pintor de paredes.
O samba, percebe-se agora, foi pouco. E com todo o respeito à entidade centenária que tirou Cartola das ruas por mais de uma vez, chamar seu Angenor de Oliveira de sambista soa reducionismo. "Não dá mais para ler Cartola restringindo sua obra ao samba e ele, ao título de sambista. Muito além disso, Cartola era um poeta", diz a cantora Fabiana Cozza, uma das curadoras de um projeto do Itaú Cultural que pode trazer uma dimensão mais justa, guardada pelo tempo.
A Ocupação Cartola, a 31ª de uma série iniciada em 2009, vem sendo preparada há seis meses. Os pesquisadores foram às ruas, entrevistaram personagens importantes, caminharam pelo universo do compositor. A curadoria compartilhada, que tem Fabiana como convidada, envolve os Núcleos do Itaú Cultural de Música e de Enciclopédia e conta com a consultoria de Nilcemar Nogueira, neta e estudiosa de Cartola. "Esse projeto surge em um momento muito oportuno, em que estamos percebendo a importância da dignidade e da fidelidade às crenças", diz Nilcemar.
As partes da ocupação ficarão divididas em "1908 - o nascimento", "Encontros / Rua", "Zi Cartola", "Casa / Varanda", "Palácio do Samba" e "Cartola de Ouro". Grande amor de uma vida de muitos amores, Dona Zica, a Euzébia Silva de Oliveira (1913-2003), sambista da Velha Guarda da Mangueira e parceira mais marcante desde a década de 1950, estará presente sobretudo no espaço que terá uma ambientação do Zicartola, o bar e restaurante criado em setembro de 1963 na Rua da Carioca, no Rio, que teve Dona Zica como uma das sócias e que se tornou uma antologia na história do samba. A experiência vai propor a sensação ao visitante de que ele esteja na plateia do próprio Zicartola.
Cartola reflete sinais dos estereótipos que surgem silenciosamente e às avessas. Quando se pronuncia seu nome, assume-se em geral um discurso respeitoso e de engrandecimento, mas limitado às cercanias do samba pela maior facilidade de entendimento ou pelo desconhecimento de sua abrangência. Sem a necessidade desse carimbo, Fabiana Cozza acredita que o homem que colocou o samba no alto escalão da música brasileira possa ser entendido com maior grandeza. "Não se trata de valorizar aqui o Cartola preto, pobre, que nasceu no morro. Isso não é o mais importante, essa é uma camada muito superficial. Depois de passar por essa curadoria, eu posso dizer que eu não conhecia o Cartola" afirma.
Serviço:
Ocupação Cartola
Onde: Itaú Cultural (Av. Paulista 149 , São Paulo Estação Brigadeiro do metrô)
Data: 17 de setembro 13 de novembro de 2016
Horários: Terça a sexta das 9 às 20h (permanência até as 20h30); sábado, domingo e feriados das 11 às 20h.
Obra do compositor é relançada em box
Recém-lançada, a caixa "Cartola - Todo Tempo Que Eu Viver" agrupa, em três discos, a obra que o compositor produziu entre 1967 e 1976. Incluídos no box, os dois primeiros discos de sua carreira, de 1974 e 1976 - no seu álbum de estreia, ele já tinha 65 anos -, foram lançados graças à chancela da Discos Marcus Pereira (que agora pertence ao acervo da gravadora Universal). À época, já fazia um bom tempo que Cartola havia sido redescoberto por Sérgio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta, no fim da década de 50, como lavador de carros em Ipanema.
No projeto, os dois LPs históricos, remasterizados, vêm com arte e textos originais. O primeiro álbum já era feito de clássicos como "Disfarça e Chora", "O Sol Nascerá" (A Sorrir) e "Alvorada". O segundo disco traz na capa a foto emblemática de Cartola com a mulher, Dona Zica, e outras grandes composições, como "O Mundo É Um Moinho", "Preciso Me Encontrar" e "As Rosas Não Falam".
Em "Todo Tempo Que Eu Viver", há ainda o disco "Tempos Idos", uma compilação de todas as músicas gravadas pelo mestre, um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, em discos de outros artistas e projetos especiais, entre 1967 e 1975. São os chamados lados B de Cartola, que incluem uma seleção de sambas da Mangueira com Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso, em Todo Tempo Que Eu Viver, Pranto de Poeta, Mangueira, entre outras.


