'Cartola', a nobreza de um lorde do samba
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terça-feira, 03 de abril de 2007
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
Foi um caso de amor. Há dez anos, logo depois de ''Baile Perfumado'', Lírio Ferreira embarcou em outro projeto, desta vez de encomenda. O Instituto Itaú Cultural abriu um programa de desenvolvimento de projetos. A idéia, no começo da retomada, era ajudar produtores e diretores na formatação e desenvolvimento de roteiros e filmes. Não previa, necessariamente, que eles fossem realizados. Em parceria com o roteirista Hilton Lacerda e a produtora Clélia Bessa, da Raccord, ''Cartola'' começou a nascer.
Era, como já se disse, uma encomenda e, em princípio, pode até parecer surpreendente que, após a vibração da mangue beat de Chico Science no ''Baile'', Lírio tenha se voltado para as densidades e sutilezas de um dos maiores poetas da música popular brasileira. Não há surpresa nenhuma. Cartola era Cartola, um lorde, como o define Cacá Diegues, dando seu testemunho no documentário que estréia sexta-feira. ''Cartola'' segue-se a ''Vinicius'', de Miguel Faria Jr., que foi um grande sucesso de público - o documentário mais visto da história do cinema brasileiro, com 204 mil espectadores. ''Cartola'' estréia em 25 salas - cinco no Rio, quatro em São Paulo e as restantes em Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Recife.
Lírio e o roteirista Hilton Lacerda, que co-assina a direção, não sabem dizer em que momento se apaixonaram pelo personagem. Talvez o amor já fosse anterior, talvez, ao penetrar nos mistérios daquela vida, tenham feito descobertas essenciais, sobre eles mesmos, mas a verdade é que, como diz Lírio, ''ficamos tomados pelo personagem''. Perceberam que, por meio de Cartola, era possível fazer algo muito maior. ''Uma história do Rio de Janeiro e do Brasil, mostrando a consolidação do samba como autêntica expressão da cultura popular brasileira.''
Uma equipe fez uma detalhada pesquisa sobre a vida e obra de Cartola. Ao contrário de outros documentários, onde o diretor não sabe o filme que vai realizar, ''Cartola'' teve um roteiro detalhado. O filme custou em torno de R$ 1,6 milhão e mais de R$ 600 mil, com certeza, foram gastos só na aquisição dos direitos de imagens e músicas.
O filme, demora para satisfazer o desejo do público de ouvir ''As Rosas não Falam'', mas quando ela vem é em diversas vozes - incluindo, claro, a de Beth Carvalho. Não foi um efeito calculado. Bem - talvez tenha sido, admite Lírio Ferreira. Mas ele assinala que ''Cartola'' segue a cronologia e a consagração de ''As Rosas'' pertence à fase dos anos 60. Cartola no violão, Dona Zica, a lendária companheira, na cozinha, durante dois anos, no Zicartola, eles haviam, batalhado para levar a nobreza do samba à cidade. Nobreza que Cartola representou como ninguém.


