Há 30 anos um assassino frio, solitário, sombrio e estóico, Jack Carter está de volta. Agora como um grosseiro, um brutamontes emocional com especial predileção por ossos quebrados. Há 30 anos nos traços ambíguos de Michael Caine, agora nas feições carcamanas de Sylvester Stallone, que transformou o personagem numa espécie de selvagem de pavio curto. Mirando o grosso da multidão espectadora de hoje.
Não que houvesse alguma razão especial para o filme do inglês Mike Hodges, de 1971, tornar-se um clássico. Ou um cult, o que afinal acabou ocorrendo. Visto e revisto através dessas três décadas, o ‘‘Get Carter’’ original não tem estofo para isso. E nunca ninguém explicou satifatoriamente esse status. E ninguém com certeza vai explicar também por que aquele roteiro atraiu a atenção de Hollywood. Ainda que tão carente de idéias novas e buscando a solidez comercial de produtos já testados.
Nesta readaptação da novela ‘‘Jack’s Return Home’’, de Ted Lewis, Stallone interpreta Carter, um ‘‘coletor’’ de dívidas que volta a Seattle natal para investigar a morte do irmão em acidente estranho. Por que ele se interessa ninguém sabe, já que os dois jamais tiveram alguma coisa a ver um com o outro. A viuva (Miranda Richardson) e a filha (Rachael Leigh Cook) não parecem gostar muito da presença de Jack, que continua a fazer perguntas certas em lugares erradas. Logo sua coleção de inimigos abraça um quarteirão. O que se vê é um Stallone envelhecido distribuindo pancadas na maioria dos homens que encontra pela frente, duas exaustivas caçadas automobilísticas pelas ruas de Vancouver (fazendo as vezes de Seattle) e curiosamente nenhuma das excentricidades sexuais da primeira versão.
Como única ligação entre os dois filmes, Michael Caine reaparece aqui como um dos muitos ‘‘bad guys’’, e talvez deliberadamente mostra uma performance entre entediada e estupida. A pálida – para não dizer nula – resposta do público americano no box office é sintomática: nem mesmo a turma da pesada anda querendo endossar tal tipo de espetáculo. (C.E.L.J.)

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