Cartas na manga
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de outubro de 2013
Geraldo Bessa<br>TV Press 
A telenovela brasileira passou por profundas transformações de formato e conteúdo ao longo do tempo. Diante de folhetins cada vez mais dinâmicos e ágeis, o trabalho de criação dos autores foi se adaptando a uma demanda maior por histórias, personagens e cenas. É por isso que muitos escritores optam por descentralizar sua trama principal em vários personagens. Dessa forma, é possível dividir o "fardo" dos intérpretes, além de mexer e inventar novas situações com as novelas em exibição.
"O público é ávido por agilidade. Nenhuma história consegue se manter em total ápice por tantos meses. É preciso ter a possibilidade de chamar a atenção para diferentes núcleos. Ter muitos protagonistas é a saída", garante Carlos Lombardi, autor de "Pecado Mortal", sua novela de estreia na Record.
Na nova trama, Lombardi conta com cerca de 10 personagens principais e acredita ter encontrado o equilíbrio ideal entre seus protagonistas, algo que ele já utilizou em folhetins como "Quatro por Quatro", de 1994, e "Pé na Jaca", de 2006.
O método é uma herança deixada a Lombardi e outros criadores por Cassiano Gabus Mendes, autor de clássicos das sete da noite como "Corrida do Ouro", "Marron-Glacê" e "Elas por Elas", novelas que inauguraram o "filão" de múltiplos protagonistas e que fizeram escola. Basta ver que outra "discípula" de Cassiano, Maria Adelaide Amaral, também apostou em vários protagonistas para a espinha dorsal de "Sangue Bom", sua estreia autoral em novelas antes ela só havia feito minisséries e remakes da obra de Cassiano.
Na trama de apelo jovem assumido, Sophie Charlotte, Fernanda Vasconcellos, Isabelle Drummond, Marco Pigossi, Jayme Matarazzo e Humberto Carrão se dividem no posto principal. "Um personagem complementa o outro e o conjunto enriquece a novela. Dá muito mais trabalho, mas cria-se um mosaico interessante de vozes e posturas que identificam o folhetim", acredita Maria Adelaide.
Talvez por estar associado ao humor, o horário das sete virou a faixa perfeita para a emissora abordar histórias descentralizadas. Tramas recentes como "Morde & Assopra", "Cheias de Charme" e o remake de "Guerra dos Sexos" contavam com, no mínimo, quatro protagonistas. "O grande problema do autor é fazer com que todos os intérpretes fiquem felizes com o seu espaço e representatividade dentro da novela. A tarefa é árdua. Afinal, é no decorrer da trama que a gente consegue identificar o que mais agrada o público. E é claro que isso será evidenciado", entrega Silvio de Abreu.
No caso de Izabel de Oliveira e Filipe Miguez, dupla responsável por "Cheias de Charme", o êxito popular fez com que ambos tentassem escrever de olho em um certo "equilíbrio de forças" entre os papéis. "Acho que nossa sorte foi ter um elenco bem entrosado entre si e com seus personagens. Aí, era só dosar as histórias e situações na medida para que todos tivessem seus bons momentos", explica Izabel.
Na Record, além da atual novela de Carlos Lombardi, as antecessoras no horário "Balacobaco", "Vidas em Jogo" e "Ribeirão do Tempo" também apostavam em um grande número de personagens principais. Notadamente, "Vidas em Jogo" é a única onde todos os protagonistas estavam, de fato, interligados. Na trama de Cristianne Fridman, 10 premiados na loteria tinham de dividir a quantia nada modesta de R$ 200 milhões. "O dinheiro era o grande pretexto para mostrar nuances e ambiguidades dos personagens. Então, montei o esquema de ter perfis bem diferentes e populares para dar gás à história. Achei que o público fosse ficar confuso, mas todo mundo embarcou bem na trama", exalta Fridman.
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