Na virada do século 19 para o 20, um certo Sebastian Melmoth hospedou-se discretamente no Hotel d’Alsace, uma estalagem de quinta categoria no Quartier Latin, em Paris, e ali passou, solitário, os últimos meses de sua vida. Esse Sr. Melmoth, magoado e amargo, era na verdade só uma máscara; sob ela se escondia, com o espírito em pedaços, o escritor mais paradoxal que a ‘‘Era Vitoriana’’ produziu, Oscar Wilde. Autor do conhecido ‘‘O Retrato de Dorian Gray’’, da peça ‘‘A Importância de Ser Prudente’’ e do poema ‘‘Balada do Cárcere de Reading’’, além de ensaios de aguda lucidez, Wilde teve seu sucesso literário arruinado pela paixão sem limites que cultivou pelo jovem lord Alfred Douglas, ou Bosei, como ele o chamava; amor que o apanhou no apogeu, desviou seu destino da glória para a prisão e terminou por destruí-lo.
A história que conduziu Wilde do sucesso literário para as grades é, hoje, mais célebre que todos os seus livros. Douglas não foi seu primeiro amor homossexual. Tivera com Robert Ross, cinco anos antes, uma relação sincera e confiante. A paixão pelo jovem Douglas, ao contrário, foi desde o início marcada pela desconfiança e pela manipulação. O escândalo veio quando o escritor recebeu do pai do rapaz, o marquês de Queensberry, um cartão em que o acusava de ‘‘sodomita’’. Usando Wilde para se vingar do pai, com quem tinha uma relação difícil, Douglas o incitou a processar o marquês por calúnia.
De acusador, contudo, Wilde logo se viu lançado na posição de réu - já que, de posse de muitas cartas de Wilde a Bosie, o marquês de Queensberry conseguiu inverter a direção do processo. O escritor teve sua falência decretada, foi condenado a trabalhos forçados e passou cerca de três anos preso. Foi atrás das grades que escreveu sua célebre e longa carta a lord Alfred Douglas, hoje conhecida simplesmente como De Profundis; ela é a parte mais comovente da coletânea ao alcance do leitor brasileiro.
Essa carta, contudo, é só uma peça da correspondência que Wilde, um missivista compulsivo, trocou ao longo de sua fase madura não só com Bosie, mas também com ex-amantes, como Robert Ross, ou simplesmente amigos como Ada Leverson e o jornalista Frank Harris, que mais tarde seria seu biógrafo. Correspondeu-se ainda com escritores como Stephane Mallarmé, W. B. Yeats, Bernard Shaw e Arthur Conan Doyle. É a mistura de lucidez e aflição contida nessa correspondência que leva Marcello Rollemberg organizador da seleção brasileira das cartas, em ‘‘Sempre Seu, Oscar/ Uma Biografia Epistolar’’, de Oscar Wilde (Iluminuras, 256 págs.).
Wilde, vítima de uma época
marcada pelo puritanismo
Rollemberg, ao afirmar que ‘‘Oscar Wilde foi o melhor personagem de si mesmo’’. Diz ainda, numa observação certeira que vem resumir a história do escritor: ‘‘Foi também a mais conhecida vítima de uma época marcada pelo (falso) puritanismo e pelas aparências.’’ ‘‘Sempre Seu, Oscar’’, a coletânea de Rollemberg, se restringe à última década de vida do escritor, entre 1890 e 1900, período em que passou do céu da glória literária para o inferno da execração pública.
O livro abre com a única conhecida, e brevíssima, carta que Oscar Wilde escreveu à sua mulher, Constance, com quem se casou em 1884, teve dois filhos, Cyril e Vyvyan, e de quem se separou logo depois que o caso com Douglas se tornou público. Começava ali um período de grande escuridão. ‘‘Entre mim e a vida há sempre uma névoa de palavras’’, Wilde escreveu a Arthur Conan Doyle, numa breve carta de 1891, mesmo ano em que conheceu lord Alfred Douglas.
Dois anos depois, em carta a Bernard Shaw, reafirmou, sem esconder sua inveja: ‘‘A Inglaterra é o país dos fogs intelectuais, mas você tem feito muito para clarear o ar.’’ Era assim, preso numa mescla de moralismo vitoriano e paixão desenfreada, que se debatia.
Desde o início, Wilde, ainda que apaixonado, já pressentia o veneno guardado no coração de Douglas. Numa carta datada de março de 93, ele diz ao rapaz: ‘‘Não posso ver você, tão grego e gracioso, deformado pela paixão.’’ Era uma premonição do que estava por vir. Alguns meses depois, em carta a lady Queensberry, constatava: ‘‘Parece-me que Bosie está num péssimo estado de saúde. Ele está insone, nervoso e quase histérico. Parece-me bastante alterado.’’
Sinais estavam espalhados por todos os lados, mas ele não podia ver. Em fevereiro de 95, quando enfim seu pressentimento toma forma, desabafa com Robert Ross: ‘‘O pai de Bosie deixou um cartão no meu clube com palavras hediondas. (...) Toda a minha vida parece arruinada por esse homem. A torre de marfim foi assaltada pela imundície.’’ Em abril do mesmo ano, já preso, ainda se esforçava para preservar dentro de si, contudo, uma imagem positiva do rapaz. Escreve a Ada Leverson: ‘‘Não que esteja realmente só. Uma figura esguia com cabelos dourados como anjo permanece sempre ao meu lado.’’ E numa carta ao próprio Douglas, continua a idealizar: ‘‘O que a sabedoria é para o filósofo, o que Deus é para o santo, você é para mim.’’
Em março de 97, depois de dois anos de prisão e já em Reading, escrevendo para More Adey e caindo em si, consegue pensar: ‘‘Você diz em sua carta que Bosie está ansioso por restituir-me um pouco do que ‘gastei com ele’. Infelizmente, eu gastei com ele minha vida, minha genialidade, minha posição e meu nome na história.’’ Começa a trabalhar, então, entre janeiro e março de 1897, na longuíssima carta que viríamos a conhecer como De Profundis, e que só seria publicada na íntegra no ano de 1924.
Pela primeira vez, começava a encontrar aversão e amargura onde, até ali, só podia ver bons sentimentos. ‘‘O seu defeito não era saber muito pouco sobre a vida, mas sim saber demais’’, diz. E continua: ‘‘O verdadeiro tolo, aquele que é enganado e arruinado pelos deuses, é alguém que não conhece a si mesmo. Eu fui um deles por muito tempo.’’
Escritor culpa-se
pela sensualidade
Wilde já estava arrependido de não ter se afastado de Douglas e isso o leva a recordar Ésquilo que, em Agamenon, relata a história de um nobre que se apaixona por um leãozinho; mas, quando o animal cresce, ele o destrói. ‘‘Conhecemo-nos por mais de quatro anos. Metade desse tempo, passamos juntos, a outra metade fui obrigado a passar na prisão como consequência de nossa amizade. Não sei onde você estará ao receber essa carta’’, escreve. Reclama ainda que, quando o visitou na prisão, Douglas não conseguiu demonstrar sentimento algum. ‘‘Você tinha a simpatia e o sentimentalismo próprios de um espectador que assiste a uma peça comovente. Nunca lhe ocorreu que você era o autor daquela tragédia horrorosa.’’
Mas, ainda assim, se esforça para perdoá-lo. ‘‘E depois de tudo isso, eu tenho de lhe perdoar. (...) Para o meu próprio bem, eu devo perdoá-lo. Ninguém pode manter uma víbora alimentando-se em seu próprio peito.’’ Culpa-se, julgando-se uma vítima da sensualidade. ‘‘Cansado de estar nas alturas, deliberadamente, atirei-me às profundezas em busca de novas sensações.’’
A partir daqui, já consegue reclamar: ‘‘Você acredita que todas nossas emoções são gratuitas. Pois lhe digo que não são. Até a mais bela e abnegada das emoções tem seu preço.’’ Mesmo assim, deixa entreaberta uma porta para o futuro: ‘‘Lembre-se também que ainda preciso conhecer você. Talvez nós dois precisemos conhecer-nos mutuamente.’’ Continua, já no fim da carta: ‘‘Por mais incompleto e imperfeito que eu possa ser, você ainda tem muito a ganhar ao meu lado.’’ Sabe que o rapaz dele se aproximou buscando ‘‘o prazer da vida e o prazer da arte’’, enquanto ele, ao contrário, lhe ensinou o significado do sofrimento. Em maio de 97, já em liberdade, numa carta à sra. Bernard Beere, descreve seu alívio: ‘‘Sinto-me como se tivesse saído da tumba. O sol e o mar parecem-me estranhos.’’
A paixão toma a
forma da condenação
Em junho daquele ano, contrariando todas as meditações que a prisão lhe inspirara, porém, escreve a Douglas para, uma vez mais, reafirmar seu amor. Em setembro, em viagem a Nápoles já novamente acompanhado do rapaz, Wilde escreve a Robert Ross: ‘‘Não consigo viver sem a atmosfera do Amor: tenho que amar e ser amado, seja qual for o preço que eu tiver de pagar por isso.’’ No mês seguinte, em outra carta, admite: ‘‘Atrevo-me a dizer que o que tenho feito (estar com Douglas) é fatal para mim, mas tinha de ser feito.’’ A paixão, enfim, toma a forma daquilo que, de fato, é - uma condenação.
Em setembro de 97, Constance Wilde, sua mulher, que viria a morrer alguns meses depois, o intima: ‘‘Eu proíbo você de ver lord Alfred Douglas.’’ Refletindo sobre a exigência da mulher, medita: ‘‘Sou um problema para o qual não há solução.’’ Depois de reconquistar a liberdade, Wilde reatou seus laços com Alfred Douglas; mas o rapaz só continuou a seu lado enquanto ele ainda teve algum dinheiro. Abandonou-o, definitivamente, em dezembro de 97. Foi o primeiro, e mais forte sinal, de que o fim se aproximava.
Já em abril de 1900, comenta, em carta a Robert Ross, que sofre de ‘‘uma espécie de paralisia’’. Instalado no Hotel d’Alsace, e muito aborrecido com a vida em Paris, volta a escrever ao amigo: ‘‘Os automóveis, como todas as máquinas, são muito mais voluntariosos que os animais - são coisas estranhas, nervosas e irritáveis.’’ O inferno se espalha. Na última carta, a Frank Harris, em 20 de novembro de 1900, o escritor relata que esteve de cama pelas últimas semanas e que continuava muito doente. Wilde morreu a 30 de novembro de 1900, aos 46 anos. Bosie morreria 45 anos depois.

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