São Paulo, 06 (AE) - Estréia amanhã (07) no Sesc Consolação, região central de São Paulo, para uma curtíssima temporada, só até domingo, o monólogo "Cartas de Rodez", o grande azarão da edição carioca do Prêmio Shell deste ano. Encenado no Instituto Psiquiátrico Philippe Pinel, no Rio, premiou a diretora Ana Teixeira e o ator francês Stephane Brodt. Uma surpresa que não deve ser creditada à falta de méritos da dupla, uma vez que os elogios foram unânimes por parte da crítica, mas pela fato de estarem competindo com atores já consagrados no Brasil.
O espetáculo foi criado a partir das cartas escritas pelo ator e dramaturgo francês Antonin Artaud a seu psiquiatra, Ferdire, durante os três anos em que esteve internado num hospício em Rodez. Ana Teixeira transferiu para as obras do Teatro Sesc Anchieta a mesma instalação criada para o Pinel. O que poderia representar incômodo numa encenação mais convencional - um teatro em reformas - tornou-se virtude para a diretora. "Acho interessante estar no meio de uma obra, uma espécie de fronteira entre o que foi destruído e o que virá".
Depois de passar pelo hall em reforma, 80 espectadores acomodam-se numa arquibancada entre manequins e livros. A partir daí, vivencia-se a experiência de profundo sofrimento de Artaud, que em Rodez passou por 60 comas provocados pela terapia de choques elétricos chegando mesmo a ter costelas quebradas.
"O que nos atraiu nessas cartas, e nos interessa levar ao público, é a extrema lucidez desse homem, desse poeta considerado louco, mas capaz de criticar com clareza o mundo dito sadio, o moderno e civilizado mundo ocidental", afirma Ana.
O espetáculo permite também perceber a transformação na relação entre paciente e médico. Antes de ir para Rodez, Artaud estava desnutrido e à beira da morte, devido aos maus-tratos, no Hospício de Ville-Évard, numa região ocupada da França. Em 1943, o dr. Ferdiére, um admirador seu, leva-o para Rodez e assim salva sua vida.
De início Artaud é muito agradecido a ele por isso. Ferdiére, porém, acreditava na terapia dos choques elétricos. "Artaud sofria terrivelmente com os seus métodos e de anjo ele passou a vê-lo como carrasco". As cartas escritas por Artaud a seu médico são uma tentativa de convencê-lo a deixá-lo livre.
Stephane integrava na Europa a companhia dirigida por Ariane Mnouchkine, o Théâtre du Soleil. Ana passou sete anos na Cia. também francesa Théâtre Del Ange Fou, fundada por seguidores ortodoxos do ator Etiene Decroux, contemporâneo de Artaud, com quem trabalhou e desenvolveu uma gramática cênica baseada na linguagem corporal. "Cartas de Rodez" foi a primeira experiência de Ana como diretora, mas ambos já preparam um nova montagem, cujo tema preferem não adiantar.

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