CARTAS DE ANA C.
Wilson Bueno
De Curitiba - Especial para a Folha2
A editora Aeroplano, que nos deu, entre outros títulos, o excelente Esses Poetas, antologia com o melhor da poesia brasileira recente, volta à carga, agora com Correspondência Incompleta (organização de Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda, 313 págs., 1999), reunindo cartas escritas pela poeta Ana Cristina Cesar, ícone carioca dos anos setentas, e que tendo se suicidado, em 1983, converteu-se, em pouco tempo, num dos maiores mitos literários tupiniquins. Motivos para tanto não faltaram - além da beleza física, e da morte precoce, aos 31 anos, Ana C., em sua curta vida, alcançou produzir, em meio ao geral desleixo dos poetas de sua geração, uma poesia originalíssima, com acento todo pessoal e intransferível, diferindo de seus pares no que havia de rigor baixo a aparente incúria de seu estro. Não creio tenha feito escola e nem granjeado seguidores, a exemplo de Paulo Leminski, outro poeta mítico e cuja influência é visível em nove dentre dez candidatos ao estrelato poético cá na República das Bruzundangas, para usar a expressão com que definia o País outro suicida em potencial - o escritor Lima Barreto.
São 93 cartas, compreendendo um período que vai de 1976 a 1980, endereçadas a quatro das mais íntimas amigas da poeta - Clara Alvim, Heloisa Buarque de Hollanda, Cecília Londres e Ana Candida Perez. Anotações do cotidiano, o diário de uma vida voltada em exclusivo para a literatura, ainda que de um modo quase displicente, ao contrário do que espelha, - de novo a inevitável comparação -, a epistolagem de Leminski a Régis Bonvicino ( Envie Meu Dicionário, editora 34, 1999) onde a vida da escrita é uma usina de tormentosa ebulição.
Em Ana C., não - junto com o gosto e o gozo da escrita, ou antes deles, vem a paixão por tudo o que, miúdo, preside o cotidiano de uma moça brasileira no Rio de Janeiro dos anos setentas, ou esforçando-se para cumprir uma bolsa de estudos em Essex, na velha England. Lá como aqui o que há é a perplexidade de estar viva, ainda uma vez viva, indiferente se entre delícias ou fragorosas quedas no abismo. E aí, cada carta é um poema de Ana Cristina Cesar, tocados todos de um sentimento, forte o bastante para fazer brotar, no canto do olho, mesmo do leitor mais distraído, uma furtiva lágrima, sobretudo face ao encanto, este poroso encanto capaz, só ele, de dar notícia do ido e do vivido; do aziago da vida sim; mas, tanta vez, também do seu mel.
Retalhos nostálgicos, notícias de ontem, o que estas cartas falam ninguém poderia falar com mais propriedade senão ela própria, Ana C., a cavalo de seu mito e de sua mitologia pessoal, na vivência minuciosa dos anos loucos onde oscilávamos entre comprar ou não um revólver para os momentos de pânico. Errar de cálculo, este tempo, se mostrou sempre fatal. Ana C., por um descuido, se enganou de pulso e de impulso e se atirou do oitavo andar do edifício feito o tropeço lúdico dentro de um sonho, ou de um pesadelo, do qual invariavelmente acordamos. Acontece que Ana C. não acordou mais. Para se tornar, daí em diante, o mito incurável de uma lenda sem-fim.
Este vosso resenheiro, - necessário esclarecer -, tão zeloso em se manter rente aos livros que resenha, e portanto ciente de seus limites, aqui espraia-se um pouco, desdobra-se e até se perde - posto que estas cartas, lidas tarde da noite no arrabalde, retrazem nas asas do tempo, entre outras coisas, o diário-de-bordo dos anos setentas baixo as noites cachorras da mais recente ditadura brasileira. Éramos os protagonistas de um entreato jocoso e arrepiante - as mesmas ruas e bares e esquinas palmilhadas por Ana C. frequentemente cruzavam-se com as do país deste vosso escriba, e sendo este Correspondência Incompleta o diário íntimo daqueles dias, impossível uma imparcialidade, desde já sem calor, frente a estes versos a sangue quente.
Refiro isto porque intuo que também o leitor destas cartas-balas, poemas-através, dificilmente permanecerá alheio às suas linhas tocadas da imprevisível majestade dos dias; pedem, uma a cada vez, as cartas de Ana C., mais que a simples leitura de seus signos, um empenho, um engajamento, um vigoroso pronunciamento a favor, tanto do que diz o diapasão do grito quanto do que expressam as intermitentes delícias do dia-a-dia - umas vezes ávido; outras, meliante cantor. Cumplicidade, esta a palavra-projétil, este o tiro no escuro destas cartas escandalosas de tão íntimas e envenenadas do que a morte põe de ovos sucintos a cada página.
Para quem conhece Correspondência Completa, o delicioso livro falsamente epistolar, de 1979 (edição de autor), com uma única missiva, assinada por uma paradigmática Júlia, as cartas de agora dirigidas a quatro ex-professoras, todas mais velhas que ela, amigas a quem amava de aflito e invasivo amor e, principalmente, mulheres, com o compromisso - visível aquele tempo - de fazer desta condição, mais que gênero, ofício e arte, as cartas de agora neste sentido não surpreendem. Mas isto não quer dizer que deixem de acrescentar ao poemário de Ana C., alguns novos e inquietantes momentos da mais alta voltagem. Assim, a esmo - Danço samba nesse baile absurdo, e me visto de mim quando preciso e quando não preciso. (...) Acho enfim que é provisório ser da condição dos avessos. (cartão-postal a Heloisa Buarque de Hollanda, s/data, onde assina molecamente Júlio...). Se essa transa de escrever pintar mesmo, acho que eu arrisco dizer que vou passando da poesia para a ficção. Desejos de gente, cachorro passando, copos, bumerangues. (carta a Cecília Londres, 7/7/1977). Será que vou dançar na vida? Meu olho vivo tá tapado. O lado de fora bate pouco. (a Heloisa Buarque de Hollanda, 7/5/1980).
Personagem de si mesma, - como, de modo nítido, assinala uma das destinatárias destas garrafas-ao-mar, Ana Candida Perez, no oportuno espaço reservado ao final do livro para os respectivos comentários sobre a correspondência, - Ana Cristina Cesar parece, desde sempre, engendrar à flor da vida, o final colapso. Há, do começo ao fim desta biografia epistolar, uma exasperação, uma linha de fundo quase extenuante a cada dia vencido sob cansaço e melancolia, mesmo que perpassado pela minudência dos fortuitos desfrutes e das miúdas delícias. Não importa, a sua é uma beleza trágica - lunar e saturnina Ana C. nasceu com a vocação do mito e a ele e à sua construção se entregou com volúpia.
Mas nas 93 cartas de Correspondência Incompleta, (magnífico o projeto gráfico de Cecília Leal) o que temos, ainda que com o mito entranhado na garganta, é o melhor de Ana C., aquilo que em última instância a valida - a sua música; a capacidade, que é de poucos na história de nossas pobres Letras, de arrancar do prosaico o mais sublime. A sua poesia foi esta mesma que as cartas de agora só fazem repor ao primeiro plano - a capacidade de extrair da superfície maleável das coisas e de sua gratuidade muita vez enganosa, significâncias supremas, transcendências, ouros mágicos, a lata perplexa face ao próprio brilho, como uma peça de Andy Warhol ou o exasperante meio-dia num quadro de Edward Hopper.Livro que reúne cartas de Ana Cristina Cesar revela detalhes do cotidiano da poeta mítica dos anos 70
ReproduçãoAna Cristina Cesar: paixão por tudo nas cartas que revelam o gosto pela literaturaReproduçãoReproduçãoAna C. tornou-se o mito incurável de uma lenda sem-fim...





