Cartas de amor
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de abril de 2010
Célia Musilli 
Gostaria de ter a desenvoltura de Ronaldo para falar de futebol quando falo de amor. Mas deste Senhor pouco sei. Então, quando um leitor pergunta ''por que as pessoas escrevem cartas de amor?'' E se ''isso serve para se revelar ou é apenas um desabafo?'' Tenho de parar e pensar, mais que isso, procurar exemplos para tentar uma resposta.
No caso dos escritores, muitas vezes suas cartas revelam mais deles mesmos que sua própria obra e aproximam os leitores do seu mundo, mesmo quando não foram escritas para eles. Uma carta da poeta Ana Cristina César a uma amiga revela aspectos de sua fantasia, aquela mesma que todos nós cultivamos quando fechamos a porta do quarto, entregues a nós mesmos. Este momento de intimidade é mostrado em trechos em que ela transita entre a vida e a literatura, falando exatamente do que as cartas e biografias provocam:
''Fico horas no meu quarto e gostando e inventando coisas para fazer. Entrei numa de literatura, é o meu brinquedo. Depois da Emily Dickinson, estou em fase de Katherine Mansfield, leio tudo, inclusive biografias ordinárias (que leio arrepiada, I must confess que para dizer a verdade estou achando cartas e biografias mais arrepiantes que a literatura) e fico sonhando com essa personagem.''
Acho que os escritores primeiramente escrevem para si mesmos, embora exista a ideia de que escrevem principalmente para o público. Claro que todo escritor quer leitores, mas é consigo mesmo que fala quando corre atrás das palavras, na tentativa de compreender sentimentos, emoções, estados de espírito que se não encontrassem uma ''linha'' ficariam ali na cabeça, como o eco de uma voz nas cavernas.
Neste sentido, acho que as cartas de amor ocultam, primeiramente, o medo da solidão, mas também exorcizam o fantasma da ausência. Quando alguém as escreve, há sempre um interlocutor imaginário, ainda que seu destinatário nunca as leia. Mas enquanto são escritas, o destinatário de alguma forma está presente, as cartas se tornam ''físicas'' e, no ápice do romantismo, chegam a transportar lágrimas ou beijos.
O escritor e filósofo francês Denis Diderot, conhecido por ter sido um dos autores da ''Encyclopédie'' - uma das primeiras obras do gênero - escreveu à sua amante Sophie Volland cartas de amor que se transformaram numa obra-prima da literatura. Numa delas, concebe o ''fenômeno'' de trazer para perto de si o amor ausente, através da correspondência:
''10 de junho de 1759, Denis Diderot à Sophie Volland
: Escrevo sem ver. Vim. Queria beijar tua mão e ir-me embora. Voltarei sem essa recompensa. Mas já não serei bastante recompensado, se tiver te mostrado o quanto te amo? São nove horas. Escrevo-te que te amo, quero ao menos escrevê-lo; mas não sei se a pena se presta a meu desejo. Será que não virás para que eu te diga e depois fuja? Adeus minha Sophie, boa noite. Teu coração então não está te dizendo que estou aqui. Essa é a primeira vez que escrevo nas trevas. Essa situação deveria me inspirar muitas coisas ternas. Sinto apenas uma, é que me é impossível sair daqui. A esperança de te ver um instante me detém, e continuo te falando, sem saber se estou formando caracteres. Em todo lugar onde nada houver, lê que te amo.'' (Tradução de Alain Mouzat)
A última frase (''Em todo lugar onda nada houver, lê que te amo.'') mostra como os apaixonados preenchem ausências com a lembrança do seu amor, até mesmo quando nada escrevem, deixando reticências...
Numa das cartas, Diderot também colocou a frase: ''Beije o fim da linha, porque a beijei antes, aqui e aqui.'' Assim, ele trocava um beijo com Sophie ali mesmo, no papel, transformando a correspondência num ato físico e presente.
Numa atitude equivalente, Sade escrevia algumas cartas com sangue e, assim, de certa forma, materializava a sua presença e a de seus interlocutores.
Por estas e por outras, me ocorre que quem escreve cartas de amor, as escreve primeiro para si mesmo, para realizar seus desejos, ainda que os destinatários nem sempre estejam prontos para compreendê-las. É comum alguém caprichar numa carta de amor e nem sequer obter resposta. Neste caso, caro leitor, fique tranquilo, não se trata de falta de clareza para dizer o que sente. É que na correspondência amorosa, que hoje continua encontrando terreno fértil nos e-mails, os interlocutores só respondem àquilo que tem ressonância dentro deles. Em outras palavras, só responde a uma carta de amor quem está igualmente apaixonado ou, pelo menos, interessado em manter o contato. E isto vale para qualquer tempo. Fico pensando quais seriam as respostas de Sophie Vollant ao Diderot apaixonado. Mas não importa se ele foi ou não correspondido, muitas vezes o que escrevemos a outras pessoas transforma-se em nossa própria obra-prima. E isso basta para quem escreve.
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