Cartas da abolição
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
''Eu tenho uma amiga negra que se chama Olga. Eu gosto muito dela, ela é uma amiga superlegal, espero nunca esquecer dela. Mas, voltando ao assunto, nesse dia estávamos dentro da sala de aula escrevendo. De repente acabou a luz, e um menino muito engraçado, na beira da escuridão disse para todos ouvirem: 'Cadê a Olga?' Eu nem tinha percebido, só ouvi a sala toda rindo e eu quis saber por que todos estavam rindo, quando eu fiquei sabendo fui falar com ela e ela estava chorando.''
Onde está Olga? Ela vive em lugares diferentes do mundo, mas a sua história será sempre parecida a de todos os que enfrentam o racismo e o preconceito. Uma legião que, no Brasil, nos 120 anos da abolição da escravidão ainda está em busca do próprio lugar na sociedade - uma população expatriada social e economicamente.
Para encontrar todas as Olgas, personagens dessa tragédia humana, e despertar uma reflexão sobre os 120 Anos da Abolição da Escravidão, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo (SEC), através da Assessoria de Cultura para Gêneros e Etnias (ACGE), lançará dia 26, no Museu Afro Brasil, na capital paulista, dentro das atividades da Semana Nacional de Consciência Negra, um livro com 120 textos selecionadas na campanha cultural ''120 Anos de Abolição. Racismo: Se Você Não Fala, Quem Vai Falar?''
A campanha é inspirada em outras Olgas que narraram o próprio martírio em ações semelhantes na África do Sul e em Ruanda, através das Comissões de Reconciliação e Verdade criadas em diversos países para resolver casos de transição, após situações de violações de direitos humanos em larga escala. O objetivo seria evitar que os crimes genocidas praticados nesses países fossem esquecidos.
As nossas Olgas apareceram nos relatos das 10 mil cartas e cerca de 700 desenhos de estudantes do ensino infantil de várias escolas das redes municipais de São Paulo.
Cartas como a da paulistana Jaqueline Aparecida Schulter, 15 anos, autora do texto acima, estudante do ensino médio, que se considera branca, apresentam ao Brasil as suas Olgas.
''São textos que evidenciam um tema que é tabu. Muitos dizem que não existe. O nosso objetivo foi despertar a discussão. Escolhemos as cartas porque é um momento da pessoa ter uma reflexão sobre como o problema impacta. Ao invés de ser uma discussão acadêmica, a campanha quis ouvir a população'', comenta Leandro Rosa, assessor de Cultura para Gêneros e Etnias da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo, acrescentando que a campanha foi lançada dia 13 de maio, data da Abolição da Escravidão no Brasil.
As urnas colocadas em lugares estratégicos como museus, centros comunitários, associações, trens e metrô. As cartas também chegaram no site www.120cartas.ig.com.br. A comissão de seleção dos textos foi formada por cinco consultores, entre jornalistas, cientistas sociais, professores universitários e do ensino médio.
O livro, com tiragem inicial de três mil exemplares, é dividido em poemas, reflexões e denúncias e conta histórias de como os autores descobriram, sofreram e de que maneira o racismo e o preconceito afetam suas vidas. Os desenhos que chegaram à campanha devem ser expostos no lançamento da obra, material que também pode render uma nova publicação sobre o tema. O tratamento gráfico é do designer de Kiko Farkas.
Os textos que não foram selecionados se transformarão num arquivo público, devendo ser doados a uma universidade estadual paulista, onde as Olgas, de alguma forma, serão repatriadas.


