CARTA DO LEITOR - A importância de se manifestar
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de outubro de 2015
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local
Muito comum nos veículos de comunicação, a seção de cartas do leitor, espaço destinado para que leitores escrevam suas opiniões, críticas ou sugestões sobre o conteúdo divulgado, não é um gênero trabalhado com frequência nas escolas. Pensando nisso, a professora Wirginia Barbosa Sailva, do Colégio Estadual do Campo São Jorge, escola rural do distrito Terra Nova, em São Jerônimo da Serra, desenvolveu um projeto que trabalhou o tema por meio de oficinas e produção de cartas com duas turmas do sétimo ano. "Eu mesma não dava tanta importância a esse gênero e, por isso, nunca havia trabalhado com meus alunos anteriormente. Mas, durante a realização do projeto, percebi que não pode mais ficar de fora do conteúdo para o desenvolvimento de uma visão mais crítica."
Ela explica que o projeto dividiu-se em doze oficinas realizadas num período de quase três meses com os 45 alunos. "Comecei a introduzir o assunto de forma motivacional, apresentando a função da carta do leitor e, assim, sentir o que já conheciam sobre o gênero. Percebi que pouquíssimos sabiam do que se tratava", lembra a professora. Em seguida, Wirginia levou diversos exemplares de revistas, jornais e gibis para que os alunos tivessem um primeiro contato. "Pedi que procurassem e identificassem onde estavam as cartas. Mais uma vez, houve muita dificuldade. Como cada veículo tem um modelo de carta e disposição no exemplar, eles não conseguiram apontar de imediato", destaca.
Diante da exploração do ambiente, viu que teria um campo vasto para trabalhar. Sendo assim, na oficina seguinte, a professora levou uma reportagem de jornal que falava sobre banco de sementes, entre eles, de feijão, e outra sobre a ajuda da minhoca na terra. "Escolhi temas com os quais eles fossem familiarizados, que são relacionados à agricultura. Depois de lerem o material e destacarem os principais pontos, eles deram início à sua primeira carta."
Nesta primeira tentativa, segundo ela, houve dificuldade dos alunos em entenderem quem era o interlocutor da carta. De forma que não se sentissem sozinhos nessa atividade, realizaram, então, uma enquete na escola com alunos de outras séries para levantarem informações sobre o que sabiam sobre cartas do leitor. "Viram que a maioria não tinha conhecimento e isso os acalmou."
Como existem diversos tipos de cartas - entre elas de questionamento, crítica, parabenização, reflexão, solicitação - a professora escolheu o que considerava o mais tranquilo num primeiro momento que é o "elogio". "Para a realização de uma carta de outros tipos, eles precisariam de argumentos fortes para darem sustentação ao descontentamento. O elogio seria mais simples, porém, não menos importante."
Contudo, a professora não deixou de trabalhar e mostrar os outros tipos de cartas com as crianças. Ao mesmo tempo, realizou exercícios que chama de "características linguístico-discursivas da carta", em que o aluno precisava apontar cada elemento da estrutura da carta: tipo, veículo, assunto.
Na oficina seguinte, ela levou diversas cartas que estão no livro Capitães de Areia, de Jorge Amado. "Apesar de fictícias, eles puderam observar como várias pessoas, no caso os personagens, escreveram sobre o mesmo tema de ângulos diferentes", destaca Wirginia. Cada aluno, então, escolheu um papel social, também fictício, e escreveu sobre o tema: menores abandonados. "Como não era um acontecimento real, não tiveram medo de escrever o que vinha à mente. Usaram a liberdade da imaginação e conseguiram desenvolver muito bem a proposta."
Confiantes de que poderiam escrever cartas sobre qualquer assunto, era hora de se aprofundar na questão léxica, ou seja, a importância e força das palavras. "Uma carta de elogio tem em sua natureza palavras mais delicadas, que também demonstram respeito e cordialidade. Nessa fase, também trabalhei de forma conjunta a importância da pontuação para a compreensão do texto tanto quanto a ideia." Também foram abordados itens como título, de forma a conseguirem sintetizar o conteúdo da carta de maneira a cativar. "Tudo foi realizado na prática. Mostrava exemplos e, em seguida, tinham que produzir", conta.
A última oficina ficou por conta da produção final de uma carta a ser enviada a um veículo de comunicação. A Folha de Londrina foi o jornal escolhido pela sala com base na coluna "Bem Dito", de Flaviano Lopes, publicada todas as terças-feiras. "O assunto daquela semana era sobre pontuação, tema que já havia abordado com eles." Cada aluno elaborou uma carta individualmente e, depois, em sala, trechos de cada um foram extraídos de forma a elaborarem uma carta coletiva. "O resultado não poderia ter sido melhor. Eles entenderam o gênero, sua importância para a vida social e profissional, e produziram uma carta consistente e coerente." O material dos alunos foi publicado nas edições de 1 e de 5 de outubro.