São Paulo, 21 (AE) - Durante um ano, o Brasil terá a sua "certidão de nascimento" em mãos. Mas em doses homeopáticas: duas páginas por dia, segundo determina o acordo entre a Torre do Tombo (mantenedora do documento) e a Associação Brasil 500 Anos. O brasileiro que tiver uma curiosidade excepcional só vai poder vê-la totalmente em oito visitas à Bienal, em São Paulo - o documento tem 16 páginas.
A carta de Pero Vaz de Caminha chegou na quinta-feira ao País. Veio numa valise especial e foi entregue ao presidente da Associação Brasil 500 Anos, Edemar Cid Ferreira, que a trouxe ao Ibirapuera num carro blindado. A breve abertura da valise foi brindada com champanhe. Depois, a carta foi recolhida a um cofre. Apesar de a Mostra do Redescobrimento ser uma exposição com cerca de 15 mil obras, a carta é a grande estrela da abertura, domingo à noite.
Segurança - Será diante dela que o presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente português Jorge Sampaio declararão oficialmente aberta a mostra. A organização do evento calcula que o documento deverá ser visto por cerca de 10 milhões de brasileiros até abril de 2001, quando regressará a Portugal.
O esquema de segurança da carta de Caminha é ostensivo. São seis batedores para o deslocamento pela cidade e seis seguranças que ficam o tempo todo - 24 horas por dia - cuidando da integridade do documento. Segundo Maria Luiza Macedo, diretora de Serviços de Apoio da Torre do Tombo, o valor do seguro feito para a carta não é divulgado por motivo de segurança. Ela vai acompanhar a abertura da exposição em São Paulo e depois retorna a Lisboa.
A Torre do Tombo enviará, por ocasião de cada novo deslocamento da carta, dois restauradores e especialistas da instituição para verificar as condições do documento. Ela diz que não acha muito provável que Portugal algum dia venha a presentear o Brasil com a carta de Caminha. "É um documento português, escrito por um português para o rei de Portugal e, portanto, parte também de nossa História."
Segundo a diretora da Torre do Tombo, o esquema de segurança é semelhante para todos os documentos oficiais. "Como a carta vai ficar por um período superior ao normal fora da Torre do Tombo, demos mais ênfase ainda à questão da segurança." O período padrão para empréstimos de documentos é de três meses. A carta de Caminha vai ficar no Brasil até janeiro de 2001, inicialmente - há intenção também de levá-la a São Luís do Maranhão, o que faria com que ela permanecesse mais três meses no País.
Além de São Paulo, onde fica até 5 de setembro, a carta será exposta em Brasília, no Palácio do Itamaraty (de 7 de setembro a 6 de outubro), no Rio de Janeiro (Museu Histórico Nacional, de 16 de outubro a 15 de novembro), Salvador (Museu de Arte de Salvador, entre 20 de novembro e 17 de dezembro) e Recife (Museu de Arte Moderna, entre 20 de dezembro e 21 de janeiro de 2001).
Mas a carta não é uma estrela solitária no Pavilhão Manoel da Nóbrega. Mostra do Redescobrimento escolheu 11 artistas brasileiros e 11 portugueses para fazer reinterpretações artísticas do documento.
Os artistas brasileiros escolhidos são José Roberto Aguilar, Flávio Emanoel, Luís Zerbini, Paulo Pasta, Siron Franco
João Câmara, Glauco Rodrigues, Rosângela Rennó, Emmanuel Nassar
Karin Lambrecht e Antônio Hélio Cabral. Os portugueses são álvaro Lapa, Ana Vidigal, Costa Pinheiro, Fernando Lemos, Graça Moraes, João Vieira, José de Guimarães, Julio Pomar, Julio Resende, Nikias Skapinakis e Noronha da Costa. A curadoria da parte brasileira é de Emanoel Araújo, da Pinacoteca do Estado. A portuguesa é de Fernando Antônio Baptista Pereira, do Museu de Setúbal.
Liberdade - Antônio Hélio Cabral brincou com um retrato imaginário de Pedro álvares Cabral e seu brasão de família, sobrepondo um e outro. Paulo Pasta pintou duas grandes gotas que - ao mesmo tempo em que podem ser referências tanto à água ou ao sangue derramado - também fazem uma alusão ao tempo. João Câmara estampou figuras de índios em seis pranchas de madeira - no verso, está a própria madeira bruta, um "trompe loeil da árvore".
"Todos trabalharam com uma liberdade incrível", diz Emanoel Araújo. O "descobrimento do outro" é o principal eixo da curadoria que - além da própria carta e de seus desdobramentos artísticos - também selecionou objetos portugueses do século 16 para ilustrar essa idéia.
Entre os objetos mais antigos estão cerca de 40 navetas - pequenos vasos com feitio de um barco, em que se costumava acender o incenso nas festas de igreja. A mais antiga é uma réplica de uma naveta portuguesa que representa o nascimento de Jesus com ilustrações do índio brasileiro e de Pedro álvares Cabral. Detalhe: o objeto é datado de 1510. A maior parte das obras vem de museus e coleções particulares de arte sacra de São Paulo, Rio, Bahia e Pernambuco. Uma das navetas, de 1630, pertence ao senador Antonio Carlos Magalhães.
"Eu procurei chegar ao âmago da arte portuguesa do século 16 e à produção artística daquele período", diz Araújo, que também vai expor nos cerca de 2 mil metros quadrados retábulos, mapas, reproduções, bandejas, máscaras e outros objetos. O retábulo mais antigo data de 1505. Os objetos remontam a um período que vai de 1505 a 1520. O artista plástico baiano Carybé também terá o trabalho que fez nos anos 60 e 70, de ilustração da Carta de Caminha, exposto na mostra.

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