Carta à mãe
Mãe:
Espero que esta vá encontrá-lo gozando de saúde. Mãe, este álbum singelo de desenhos eu ofereço à senhora por ser a única responsável pelo meu êxito na vida. Eu sei, foi o Roberto Drummond quem me obrigou a ser desenhista de piadas, mas foi a senhora quem me deu esta minha invulgar e esplêndida personalidade.
Lembra daquela vez que eu estava olhando a pata botar e a senhora me deu chineladas no banheiro e me levou pra confessar no Colégio Arnaldo? Lembra daquela noite em que eu estava brincando de dar injeção na Filomena e a senhora me deu bolos com a escova de roupa na mão que estava em pecado mortal - ou original? Me explica então que, se não castigasse, minha mão secaria e cairia!
E do dia em que eu xinguei a tia Stela com um nome que era um pecado venial? A senhora passou pimenta malagueta (das vermelhas lá de Bocaiúva) na minha língua! Lembra do dia em que encontrou uns desenhos de mulher pelada que eu fiz? A senhora queimou e esfregou as cinzas na minha mão! Hah! E aquela noite em que me surpreendeu fazendo bobagem sozinho no escuro? Me disse: é pecado! Vai pro inferno! Aí me deu banho de água fria, me esfregou álcool, me deu palha benta pra segurar e rezou um terço comigo!
Pois bem, mãe, graças à educação exemplar que a senhora me deu, hoje sou conhecido e tenho fama, sucesso e fortuna.
Obrigado, mãe! A bênção do seu filho,
Henriquinho.





